Sábado, Outubro 06, 2007

Final Countdown (3)

Contudo, não me vou despedir da blogoesfera mas apenas retornar à casa mãe, da qual nunca saí realmente. No Sobre Tudo e Sobre Nada vou continuar a fazer guerra cultural, principalmente através da divulgação do conteúdo de alguns livros e artigos que julgo serem fundamentais para a compreensão do nosso mundo.
MC
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Final Countdown (2)

A partir do momento em que se toma consciência de que não sabemos o suficiente para fazer certas reflexões não nos resta senão parar. Deixo aqui uma lista daqueles que são, na minha opinião e dentro das limitações de pesquisa que todos temos, as principais mentes pensantes da blogoesfera e que me fazem ter a certeza que não lhes posso acrescentar mais nada útil, aliás, que já me devia ter calado há muito tempo.

O João Miranda do
Basfémias faz as melhores análises da blogoesfera. As suas análises são frias e impessoais, mas com um fino sentido de ironia. Não comete o pecado de endeusar a Razão, apontando-lhe frequentemente as limitações.

Pedro Arroja, agora no
Portugal Contemporâneo, é alguém que procura a verdade há muito tempo. Introduziu na blogoesfera uma dimensão realmente filosófica no sentido mais puro do termo. O seu sentido provocador é único, sendo considerado um herege mesmo entre os que dizem combater o politicamente correcto. Quem não o acompanhar perde quase todas as discussões fundamentais que se passam na blogoesfera, algumas nas caixas de comentários dos seus posts onde se destaca a zazie.

Também no
Portugal Contemporâneo temos o Rui de Albuquerque, com um conhecimento e rectidão invulgares entres os intelectuais lusos. Alguns dos melhores posts na blogoesfera foram de sua autoria.

O Bruno Alves no
Desesperada Esperança é, apesar da sua reduzida idade, um dos melhores bloggers desde país. Estando em cima dos acontecimentos políticos relevantes, mantêm sempre uma frieza britânica e um sentido fatalista da vida. Ler o Bruno sobre um determinado assunto é sempre ir encontrar algo que ainda ninguém tinha pensado.

Miguel Castelo Branco escreve o
Combustões. Na realidade nem sei como o classificar este blog mas de cada vez que lá vou fico sempre com a maravilhosa sensação que sou ignorante em tanta coisa.

O dragão, no
Dragoscópio, mostra que ainda há vida pensante e sentido de desvario neste país.

Finalmente, uma referência especial ao pessoal d’
O Insurgente, um dos maiores e mais valiosos colectivos da blogoesfera. Desde o primeiro momento foi e continuará a ser uma das minhas primeiras leituras diárias. Se essa coisa do serviço público não fosse uma treta, diria que eles seriam o melhor exemplo. Não posso também deixar de agradecer as referências que fizeram a este blog.
E, para aqueles que acham a discussão política uma coisa enfadonha mas sobretudo para os que não acham, vão até ao A Testar os Meus Limites e aprendam alguma coisa sobre a vida.
MC
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Final Countdown (1)

Este blog teve a intenção inicial de ser uma experiência conjunta. Os meus colegas de nunca se convenceram da pertinência de uma experiência como esta e as suas participações foram muito escassas. É pena porque os convidei porque considerei que têm capacidade para fazer melhores análises que eu.
MC
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Guerra cultural (13)

CONCLUSÃO

Movimentos como o Compromisso Portugal são compostos por pessoas dinâmicas, bem relacionadas, influentes, respeitadas. Fazem diagnósticos acertados e apresentam soluções teoricamente acertadas. Contudo, creio que este tipo de iniciativas sofre de um forte problema de enquadramento. Partem do princípio que combatem apenas determinadas ideias e práticas que se enraizaram na sociedade e resta apenas insistir num novo paradigma até que a razão lhes seja reconhecida. Contudo, o verdadeiro combate a fazer é contra toda uma cultura revolucionária que neste momento atingiu o seu ponto de maior sucesso. Ao contrário do que pensam estas pessoas, não estão a combater os restos do socialismo que já deu provas de inoperacionalidade e a muito custo se mantém à tona de água.

Pior que isso, podem estar a combater parte de si mesmos sem se aperceberem. Porque é bem possível que façam parte desta vertigem da modernidade obcecada pela novidade e sempre pronta a abdicar do passado. O perigo é não conseguir distinguir o que é a melhoria constante da destruição das estruturas que suportam a civilização. É notória uma certa ingenuidade de certas pessoas que pedem medidas liberais mas, como que envergonhadas, acham que têm de compensar isto com um atestado de modernidade. E assim, por suprema ironia, mostram simpatia por todo o tipo de iniciativas revolucionárias com trajes modernos, sendo coniventes com a destruição deliberada da família, do indivíduo e da religiosidade.
Se estas pessoas com capacidade de influência tomarem consciência de que o que necessitam realmente é fazer guerra cultural, então a sua actuação terá de se modificar radicalmente. Não podem apenas apontar para objectivos de curto prazo, para o desbloqueamento de certas situações para obter ganho imediatos. A guerra cultural necessita de décadas para obter resultados consistentes. É necessário inundar o mercado de centenas de obras liberais e conservadoras, mas também de outras que mostrem a verdadeira herança ocidental. É fundamental deixar de hostilizar a religião cristã, sobretudo.
MC
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Guerra cultural (12)

AS TRINCHEIRAS (4)

No outro lado da trincheira estão aqueles que procuram a verdade sobre o mundo em que vivem. Esta busca é sempre individual em sentido último, não podendo ser dissociada do conhecimento de si mesmo. Existe uma diferença abismal entre o conhecimento obtido para resolver um problema específico e aquele em busca da verdade. O primeiro é utilitarista, uma técnica que se domina sem ser necessário compreender os fundamentos. Todos nós precisamos de inúmeros conhecimentos deste tipo para podermos viver em sociedade. Falar, escrever, álgebra, comer com talheres, conduzir, saber fazer amor com uma bela mulher. De todas as pessoas que conduzem um automóvel apenas uma ínfima fracção sabe exactamente o que faz a embraiagem ou tem noção dos princípios do motor de explosão. E não é por alguém saber tudo sobre mecânica de automóveis que fica mais capacitado para a condução. Outro tipo de conhecimentos deste género resulta do acumular de saberes ao longo de muitas gerações, pelo que as fundações se perderam no tempo. Pensemos, por exemplo, nas receitas de culinária.
A busca da verdade é a tentativa de responder a questões essenciais. É frequente levar anos até serem encontradas essas questões. Depois disso a verdade é como um puzzle que se vai montando, sem ter um fim à vista. Por vezes há peças que se vem a descobrir que não pertencem àquele filme. Normalmente não é só uma peça a substituir mas várias em seu redor, que pareciam formar anteriormente um conjunto credível. Não é uma busca puramente abstracta e quem segue este caminho tem de testar permanentemente em si os fragmentos até aí descobertos. Não se pode limitar a aceitar passivamente soluções por outros já apresentadas. Tem de as considerar atentamente, rastreando-as até às origens, confrontá-las com outras perspectivas, até que mais um fragmento da verdade se forme na sua mente neste processo, apenas tendo a verdade como guia e sem forçar conclusões. São raras as pessoas que se orientam por desígnios tão nobres e também são poucos os que as conseguem identificar. Em geral recebem acusações rasteiras que lhes tentam desvendar as motivações mesquinhas que supostamente os guiam. Quem acusa desta forma deve ser, antes de mais, o principal alvo de desconfiança.
MC
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Guerra cultural (11)

AS TRINCHEIRAS (3)

Dentro de um movimento revolucionário a ruptura ocorre quando se atinge o poder. Caso não exista uma liderança forte, muito cedo vai se tornar óbvio que não existia um projecto único mas uma miríade de projectos individuais com agendas quase sempre contraditórias, até aí escondidas pela retórica vazia dos slogans da revolução. Torna-se inevitável a guerra interna, mais sangrenta que a que ocorreria com os inimigos de sempre porque agora é contra supostos traidores.

Com um líder forte é possível ir mantendo a ilusão de existir um projecto comum. Mas aí terá de se lidar com o facto desse projecto não estar a conduzir aos resultados esperados. Nessa altura começam as purgas, as acusações de sabotagem e de desvios de esquerda e de direita. Em pouco tempo resta apenas um regime de terror e o discurso revolucionário irá apenas ecoar junto aos partidários da Revolução que estão seguros no exterior e não passaram por ela.
MC
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Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Guerra cultural (10)

AS TRINCHEIRAS (2)

Como foi dito no post anterior, é necessária uma profunda motivação para fazer guerra cultural, já tendo sido vista de onde ela vem para o lado revolucionário. Mas para o lado oposto é difícil encontrar os motivos, só estando a ver dois. O mais óbvio é o masoquismo. Num repente, quem envereda pela oposição ao movimento revolucionário estará a defender posições com as quais ninguém concorda e a maior parte nem irá entender minimamente. Não nos irão acusar apenas de termos ideias estranhas mas, como afrontamos o paradigma dominante, vamos ser olhados com apreensão e repulsa. Não irá demorar até nos imputarem más intenções e tentar manchar a nossa reputação. Alguns “amigos” irão afastar-se e a situação profissional poderá ficar complicada.

A outra motivação para enveredar pelo lado fraco da trincheira é o profundo amor pela verdade. Apenas alguns homens são naturalmente bafejados por essa maldição. Uma sociedade só poderá respeitar a verdade se tiver uma vivência intensamente religiosa, onde cada homem se sente vigiado mas também apoiado pela transcendência. Quem procura a verdade ficará condenado à solidão. Parece paradoxal que a mentalidade revolucionária consiga formar movimentos de grupo apesar de se basear em sonhos irrealistas, não existindo dois iguais, ao passo que a busca da verdade, apesar da sua universalidade e objectividade, leve à solidão.
A falsa unanimidade nos movimentos revolucionários é obtida através de formulações vazias que, precisamente por isso, podem conter qualquer coisa. A união é também reforçada pela existência de um inimigo comum e bem definido. Apesar de disso, cada grupo revolucionário tem um estilo próprio, uma linguagem distinta e até rituais únicos. O indivíduo passa a ter uma profunda identificação com os símbolos do seu movimento. As formas vazias de conteúdo passam as estar plenas de emotividade. A partir daqui encontra-se a explicação para antipatia entre movimentos revolucionários, quando seria de esperar que cooperassem porque, vistos de fora, têm projectos praticamente iguais. O indivíduo de mentalidade revolucionária procura um discurso e uma simbologia que façam ressonância com os seus anseios. Apegando-se a um formato, todos os outros irão parecer-lhe caricaturas grotescas, pelo que vai acusá-los de não serem verdadeiros e contrários aos interesses da revolução.
MC
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Sexta-feira, Setembro 21, 2007

Guerra cultural (9)

AS TRINCHEIRAS (I)

É necessária uma profunda motivação para fazer guerra cultural, superior até à requerida para a guerra convencional. Não é complicado perceber as motivações do lado revolucionário. Para os revolucionários genuínos, que são relativamente poucos, é a própria mentalidade da revolução, do acreditar num devir histórico inevitável que tem o divino implícito, que lhes dá uma prodigiosa energia e sentido da vida. Para estes a guerra cultural é uma actividade permanente, uma filosofia de vida. Aproveitam todas as facilidades que as sociedades ocidentais conferem, a liberdade de expressão à cabeça, para se implantarem nas universidades, nos meios de comunicação social e instituições culturais.

Depois de obter alguma influência mínima vem a fase da conquista da hegemonia. A liberdade de expressão, que tinha sido uma ferramenta útil na obtenção do poder, vai agora ser negada aos opositores ideológicos e mesmo a cépticos. Há várias formas de o fazer, sendo uma delas impedir ou criar grandes dificuldades no acesso à profissão de não alinhados. Simples e eficaz. Para os incómodos que já se encontram em actividade há que lhes restringir cada vez mais o campo de actuação, ao microfone, à pena, ao púlpito e ao palco. O cúmulo do cinismo é vir depois acusar estes incómodos ostracizados de irrelevância porque ninguém os lê, os ouve, os cita. Para os incómodos mais resilientes, que não se querem conformar a este agrilhoamento, existem soluções mais agressivas, em especial o extermínio de carácter. Trata-se de um processo que, só por si, merecia um livro inteiro dedicado, recheado de exemplos que a História nos dá.

Ao fim de algumas décadas o processo revolucionário encontra-se num estado completamente diferente. Os revolucionários são também agora conservadores. Já quase não têm de defender as suas ideias uma vez que estas se encontram implícitas na totalidade do sistema de ensino, na actividade académica, no discurso jornalístico, na mensagem artística e no discurso político. O paradigma revolucionário tornou-se dominante, servindo de bitola para tudo o resto. É sentido como sendo a organização básica da realidade e a sua contestação é fortemente combatida de forma instintiva por quase todos. A contestação é sentida pela mentalidade revolucionária como um vírus que se tem de extirpar no imediato. Só assim se explica o paradoxo da liberdade de expressão ser apenas negada aos espíritos realmente livres, pois apenas estes combatem o cerne da mentalidade revolucionária.
Outra característica da mentalidade revolucionária é a sua imensa variedade, pois faz parte da sua natureza albergar todo o tipo de sonhos. Para quem só olha para o acessório e para o aspecto exterior da realidade será impossível perceber a unidade aqui presente. Irá ver a luta entre facções revolucionárias como uma disputa entre projectos com essências muito diferentes. Não percebe que se trata apenas uma batalha pelo poder que não querem partilhar, porque os revolucionários acabam sempre por vir a detestar todos aqueles que são como eles.
MC
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Sexta-feira, Setembro 14, 2007

Guerra cultural (8)

A OUTRA GLOBALIZAÇÃO

A globalização é normalmente entendida de forma primária como um fenómeno essencialmente económico e de tentativa de hegemonia do modelo cultural ocidental, em especial a vertente americana. Quem nos diz isso são precisamente aqueles que representam o lado mais negro da globalização, isto é, progressistas de toda a ordem e terroristas. Perceber que a globalização é uma grande “oportunidade de negócio” para o terrorismo é elementar. Basta pensar nas sociedades abertas, nas facilidades de deslocação para qualquer parte do mundo em apenas algumas horas e no medo global que se pode criar através dos meios de comunicação social.

Em relação aos progressistas a coisa não é tão evidente, paradoxalmente também por a sua acção ser omnipresente. A maior parte dos projectos revolucionários sempre teve vocação internacionalista. As correntes marxistas sempre apostaram na expansão da revolução, é certo que através de estratégias diferentes, mas sempre com o objectivo de realizar o império ideológico. Antes da queda do muro de Berlim, metade do mundo tinha regimes socialistas e a restante era composta por países cujas elites eram na sua quase totalidade progressistas (marxistas-leninistas, estalinistas, maoistas, trotskistas, etc.)

Quando o muro desabou foi como um dique que rebentou e trouxe, do outro lado da cortina e ferro, uma corrente que por momentos parecia levar algum realismo às elites ocidentais. Caindo o descrédito sobre o socialismo real, vaticinou-se o fim da história sem se perceber que a mentalidade revolucionária continuava intacta, precisando apenas de fazer uma travessia no deserto para se voltar a encontrar a si mesma. Este retiro espiritual serviu para reconhecer os erros do passado. O capitalismo era ainda o inimigo a derrotar mas não da forma brutal tentada no passado com a eliminação da propriedade privada sem ter o “homem novo” ainda preparado. O capitalismo teria agora de ser tratado como se trata uma mulher que não presta mas é gostosa. Primeiro a gente usa e só depois joga fora.

A vantagem desta estratégia era que todos podiam continuar a ter a mesma vida de sempre porque as mudanças iriam ser graduais e aparentemente espontâneas. A ideia em voga nos anos 90 do século passado da Aldeia Global colocava uma pressão de novos desígnios. Mas havia ainda que rever um erro do passado. As pessoas andavam um pouco desconfiadas de quem lhes prometia sistemas perfeitos, por isso optou-se pela estratégia do medo para criar um verdadeiro movimento planetário. Esse desígnio é encabeçado pela luta contra o aquecimento global. Este problema, se realmente existisse, só poderia ser combatido de forma concertada tendo o Protocolo de Quioto sido o primeiro passo nesse sentido.
As ideias de criar um governo mundial não vingaram há umas décadas atrás, o momento não era o certo. Agora já existe um pretexto melhor. Promete-se a salvação em troca da transferência de poder da periferia para o centro. Desta forma as autarquias perdem poder em relação aos estados e estes em relação às uniões. A ONU gentilmente oferece-se para ser o repositório último. As fronteiras vão ser abolidas, se não formalmente pelo menos na prática. As identidades nacionais também, entretidas em democracias que apenas regulam poderes inócuos. Em troca oferece-se uma nova identidade global, uma espiritualidade “new age” e um projecto de religião única, um misto de paganismo e cientismo, com reminiscências das antigas tradições espirituais para que a adesão de novos fiéis seja voluntária. Nem Marx sonhava fazer tanto em tão pouco e quase sem esforço algum.
MC
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Sexta-feira, Setembro 07, 2007

Guerra cultural (7)

ATEÍSMO REVOLUCIONÁRIO

A modernidade, tal como a tenho vindo a descrever, é talvez o mais ambicioso projecto da história da humanidade. A sua grandiosidade é de tal ordem que nunca poderia ser planeada na sua globalidade. É feita de ondas consecutivas e na crista de cada uma torna-se possível vislumbrar algumas das alterações futuras. Assim descrita, a modernidade mais não parece ser que o desenrolar normal das civilizações, que depende de tantas variáveis que nunca poderia ser nem previsível nem controlável, sob pena de graves distúrbios. Aquilo que distingue a modernidade é a negação do passado, trata-se de um projecto revolucionário que pretende construir toda uma sociedade de raiz.

A única premissa necessária para ser um agente desta modernidade é ter como princípio a negação da validade das soluções do passado. Aqui confluem todo o tipo de grupos e sensibilidade, por vezes antagónicas entre si. Marxistas, fascistas, ambientalistas, “orientalistas”, gayzistas, abortistas, feministas radicais, etc. Contudo, há um grupo que me parece ainda mais perverso: o dos ateístas. Não falo simplesmente dos que não acreditam em Deus (ateus) mas dos que acreditam piamente que Ele não existe e tudo criado com inspiração n’Ele é negativo. Ao tentarem retirar a presença de Deus do meio de nós, tolerando apenas de forma trocista o culto privado e envergonhado, os ateístas destroem os fundamentos da confiança que suportam toda a civilização. Torna-se óbvia a veia revolucionária dos ateístas se pensarmos que, em teoria, um ateu simplesmente não teria qualquer interesse na questão de Deus. Contudo, os ateístas demonstram um interesse desmedido pela negativa, procurando minar qualquer construção com base religiosa.

Os tempos modernos estão de feição para o anti-clericalismo. Fascistas já quase só existem na imaginação dos comunistas e estes são cada vez menos. A histeria ambientalista ainda deixa muita gente indiferente e as posições mais progressistas dos gayzistas ainda são uma curiosidade, apesar de em rápida progressão. Agora são poucos os que resistem em mostrar a sua ausência de medo do Deus cristão, arrogando-se de não precisarem d’Ele para nada, considerando os crentes gente fraca e de uma ignorância atroz, que se pudessem voltavam a reactivar a Santa Inquisição.
Esta posição mostra que os próprios ateístas só conseguem conceber a religiosidade de forma infantil, caindo na famosa falácia do homem de palha. Claro que ninguém é obrigado a fazer análises que superem as suas capacidades cognitivas, mas classificar instituições milenares a partir de meia dúzia dos seus pontos mais negros já revela alguma desonestidade intelectual. Especialmente quando se considera que apenas estes pontos negros deixaram a sua marca na civilização. Esta miopia ateísta não permite compreender o intricado processo da história das ideias. É curioso como certos ateístas defendem ardentemente ideias, como a da liberdade, e não se dão ao trabalho de avaliar os seus fundamentos religiosos. Alguns são ainda mais rebuscados, admitindo que no passado a religião até pode ter servido para alguma coisa, mas nos dias que correm, com os avanços da ciência e da tecnologia, podemos prescindir dela com vantagem. Apesar desta posição parecer ter algum equilibrio, se a levarmos às últimas consequências fica evidente que o ateísmo é um projecto revolucionário que, como todos do género, está condenado ao fracasso depois de destruir a vida a milhões de pessoas.
MC
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Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Guerra cultural (6)

O AMBIENTALISMO COMO PRINCIPAL MOTOR DO TOTALITARISMO

Nos posts anteriores defendeu-se que a proposta da modernidade iria, por um lado, deixar o indivíduo sem capacidade introspectiva e, por outro, dissociado da própria família, neste caso em nome de uma família universal. Mas depois do indivíduo deixar de saber como se relacionar consigo próprio e com os que lhes estão mais próximos, coloca-se a questão de saber a posição a ter face ao meio ambiente. A visão mais extremista diz que o homem só entrará em harmonia com a Natureza quando deixar de fazer quase tudo o que hoje faz. Porque, vendo bem, quase toda a acção humana modifica o ambiente em redor. Desde a utilização de matérias-primas à poluição, o homem parece só estar cá para destruir tudo à sua volta e exaurir o planeta. Até as sociedades mais primitivas não são isentas de pecado. A agricultura modifica os ecossistemas, desvia os cursos de água e até a criação de gado contribui para o aquecimento global através da flatulência das mimosas.

Estas visões mais ou menos ingénuas provocam um desejo de voltar a uma maior pureza do passado, quando o homem consumia uma fracção ínfima do que hoje dispõe e se voltava para uma deusa Mãe e todos os seus valores telúricos. Para a maior parte das pessoas são apenas ideias fugazes, a que voltam de tempos a tempos como esboço de exercício de renascimento espiritual. Outros organizam movimentos mais complexos, pequenas seitas à volta de Gaia, apesar de não dispensarem certos confortos da vida moderna. Mas tudo isto são causas minoritárias que não alteram o curso da humanidade. E uma boa forma de colocar o colectivo em sentido é incutir-lhe medo. Nas últimas décadas foram vários os alertas sobre os grandes perigos para a humanidade para além dos grande conflitos, a sobrepopulação, o arrefecimento global, o buraco do ozono, o aquecimento global, agora cuidadosamente baptizado de “alterações climáticas”.

Os temores passados referidos nunca chegaram a “pegar de estaca” . Várias são as razões para a “consciência ambiental” ser hoje maior que nunca. Por um lado a menor presença do sagrado tradicional criou uma maior apetência para novas crenças. Temos também os deserdados do muro de Berlim e outros revolucionários que vêm no ambientalismo uma nova causa. E que causa! Uma ameaça a nível planetário, não a poluição de um rio qualquer ou a extinção de um bicharoco numa floresta que ninguém sabe onde fica. Voltamos a ter um excelente pretexto para refazer a sociedade de alto a baixo. A mensagem é cristalina, a actual configuração da sociedade conduzirá a um apocalipse num futuro distante mas previsível. Face a isto, só resta entregar as rédeas aos novos planeadores que evitarão a catástrofe.

MC
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Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Guerra Cultural (5)

ACABAR COM O MITO DA FAMÍLIA

Pois bem, os cidadãos do mundo, que querem estar em harmonia com o meio ambiente, com as plantas e os animais, com todas as raças e credos (menos um…), têm alguma dificuldade em conceber essa coisa da família. É certo que alguns até dizem ter uma relação excepcional com os pais, consideram-nos amigos, nada aquela coisa antiga onde havia autoridade e castigos. Foram os pais que os levaram à discoteca pela primeira vez, que lhes falaram de sexo sem complexos. Se todos tivessem uma educação perfeita como esta só existiriam pessoas equilibradas e o mundo viveria em paz. Uma opinião que dizem ser abalizada por outros amigos de longa data, apesar de oficialmente desempenharem a função de psicólogos e psicanalistas.

Não é possível destruir por completo a consciência do indivíduo se não lhe afectarmos também as suas relações com o exterior, em especial com outros seres humanos. São raras as pessoas que conseguem ter uma mente ordenada se trabalharem num espaço caótico. Nunca encontram nada, não conseguem definir prioridades, não conseguem dar um rumo ao que fazem e por isso acabam por fazer tarefas insignificantes ou simplesmente a fazer parte dos planos de alguém. Em termos de consciência individual algo semelhante também ocorre. Se o indivíduo não reconhece qualquer noção de autoridade, se não tem ninguém a quem respeitar, se não distingue conhecidos, amigos, parentes e colegas, acaba por não ter qualquer exemplo ordenado no exterior que possa emular no seu anterior. Esta indiferenciação com que vê tudo à sua volta acaba por ser o espelho da sua alma, vazia, indecisa, sem luz, apesar do que possa aparentar.

O principal alvo, com o objectivo de destruir esta ordem exterior, é a família. A modernidade diz que já não há diferença entre pai e mãe, que aquilo que nos diziam ser natural eram apenas modelos impostos por culturas machistas e irracionais. De uma penada deita-se abaixo toda uma série de conhecimentos práticos acumulados durante milhares de anos, declarando que novos modelos têm a mesma validade, apesar de pouco ou nada experimentados. Mais do que pedir o benefício da dúvida, é exigido que se penalize abertamente a família tradicional, a começar pela eliminação de conceitos como pai e mãe.

Sobre a educação, recria-se o mito do bom selvagem ou, melhor, a noção platónica de que a alma renasce e não precisa aprender mas apenas recordar. Obviamente que os pedagogos modernos não têm a mesma sofisticação do sábio grego. Pensam que a chave de tudo é o estímulo da imaginação e inculcar uns quantos preceitos do totalitarismo correcto (conceito que substitui o politicamente correcto). Não é difícil prever que uma criança que cresce com pais que não querem desempenhar o seu papel irá sentir esta carência e tentará colmatá-la de alguma forma. Os desígnios da modernidade não deixarão isto a cuidado do acaso, como anteriormente. Candidatos naturais são os educadores profissionais. Pela vida fora o papel será desempenhado por burocratas especializados nessa função. Serão eles os únicos que darão alguma noção de ordem e autoridade.
As revoluções anteriores precisavam de indivíduos que emocionalmente nunca saíssem da adolescência e que utilizassem a revolta interior para justificar actos terroristas de sabotagem da sociedade. O totalitarismo democrático, pelo contrário, necessita de indivíduos que nunca cheguem a adolescentes e se mantenham crianças toda a vida.
MC
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Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Guerra cultural (4)

TODO O PROJECTO REVOLUCIONÁRIO COMEÇA PELO FIM DO INDIVÍDUO

Neste e nos posts seguintes serão abordadas algumas das características da modernidade. A consciência individual é algo que perderá o seu sentido. O indivíduo vai deixar de prestar contas a Deus porque a educação dominante será anticlerical. Também não prestará contas à verdade porque o relativismo dominante garante que tal coisa não existe. Existe ainda uma interpretação “liberal” da questão que garante que todos têm direito a que a realidade se adapte às suas opiniões.

Mas este elidir da consciência individual é complementado pelo trabalho dos burocratas, que a troco de concessões “insignificantes” da nossa liberdade, vão garantir que todos terão uma vida saudável e feliz. O exemplo mais patente está na proibição de fumar que vai progressivamente se estendendo a mais locais, já se falando nas próprias habitações particulares. Já motivo de discussão é o combate à obesidade, com programas forçados para os gordinhos. Alguém pode duvidar que é tudo com boas intenções? Depois de vencidas as resistências das forças reaccionárias e atávicas da sociedade não há virtualmente limites para a regulação da vida privada de cada um. Depois dos gordos serão naturalmente os magros os visados, ninguém vai deixar de ter o peso correcto. Mas importante não é só a quantidade do que se come mas também a qualidade, por isso serão elaboradas listas dos produtos permitidos na culinária e fortes recomendações de como devem ser confeccionados e em que quantidades terão de ser servidos.

Mas se a aparência é assim tão importante, porque não obrigar todos a tomar pelo menos um banho diário? E a vestir-se de acordo com os padrões estéticos da sociedade. Mas não só de aparências vive o ser humano, há que alimentar-lhe o espírito, obrigá-lo a ler determinados livros, a não deixar de estar atento a certo jornal que tenha sido aprovado por um qualquer comité de sábios. Todos terão de ir a regulares sessões de grupo onde comprovem que seguem os ditames que lhe garantem a felicidade suprema.

Em suma, retirando ao indivíduo adulto algo transcendente a que tenha de prestar contas, Deus ou a Verdade, ele vai tornar-se numa criança. Será inseguro e com uma necessidade permanente de protecção contra a incerteza e por isso irá ansiar por mais e mais regulação e que a burocracia lhe diga exactamente o que tem de fazer em cada situação. E isto não só é possível em democracia como irá por ela ser potenciado.
MC
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Guerra cultural (3)

A MODERNIDADE COMO PROJECTO REVOLUCIONÁRIO

Nos dois posts anteriores escrevi, a propósito da situação laboral, sobre o discurso “economês macro”, tão genérico que só é apelativo aos tecnocratas, e de algumas situações concretas que o indivíduo comum depara ante a perspectiva do desemprego. Seria quase expectável enveredar agora por uma síntese dialéctica, mas não o farei porque o verdadeiro objectivo destas reflexões está contido no título desta série. O problema de iniciativas como o Compromisso Portugal não é apenas a reduzida adequação do discurso à realidade das pessoas que votam. É um movimento que se pode classificar de combate de ideias mas que não faz qualquer guerra cultural nem sequer dá mostras de saber o que isso é. Pior do que ser presa fácil do populismo, iniciativas aparentemente liberalizantes podem ser facilmente incorporadas no movimento revolucionário.

Para a maior parte dos analistas a queda do muro de Berlim acabou com as utopias e os projectos de revolução. Os partidos marxistas vão-se tornando residuais em termos eleitorais, a China já é mais capitalista que comunista, Cuba espera apenas a morte de Fidel e Hugo Chávez é apenas um epifenómeno que irá desaparecer num ápice devido às contradições no sistema que vai criando. Ora, isto é uma visão simplista que tem dois erros de base. Por um lado parte do princípio que só são projectos comunistas os que tentam implementar no imediato a ditadura do proletariado e a socialização dos meios de produção, quando o próprio Marx achava que a transição levaria muitas gerações. O outro erro é achar que só existe projecto revolucionário se este for declaradamente marxista e tudo o resto não passa do natural devir da modernidade. Mas o que é essa modernidade se não um enorme projecto revolucionário já que pretende construir toda uma nova sociedade desde a raiz?

MC
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Sábado, Agosto 11, 2007

Guerra cultural (2)

Como encara o cidadão comum a hipótese de ficar sem emprego? Um despedimento compulsivo, por justa causa, será sempre visto como uma profunda humilhação. É natural que assim seja, um misto de culpa, de revolta, de solidão, de enfrentar algo para além das suas forças. Contudo, durante décadas criou-se a mentalidade de que o trabalho era um direito e tudo devia ser feito nesse sentido, o que incluía a manutenção de postos de trabalho artificiais e até impedir os despedimentos de pessoas que têm uma incompetência militante. Por isso, a perspectiva de perder o emprego é sentida, antes de mais, como a retirada de um direito e, sejam quais forem as circunstâncias, isso constitui uma afronta inadmissível. Diria até que impensável.

Mas, se o emprego está garantido para todo o sempre, nada impede que se façam planos a muito longo prazo. Abriu-se aqui uma oportunidade de negócio que bem aproveitaram os profissionais do crédito. Ao fim de pouco anos gerou-se mesmo uma pressão social para entrar no mesmo ciclo. Ninguém quer ter um carro antigo e desconfortável quando todos à sua volta têm um último modelo. E quem quer viver numa casa minúscula ou, blasfémia das blasfémias, com os pais se todos os restantes ganharam já a sua emancipação numa casa própria? E ninguém vai gostar de ficar calado quando se gera uma conversa em redor a férias em locais exóticos. Tendo em conta os baixos salários em Portugal, mesmo entre os licenciados, o que resta para a poupança é quase nada.

Contudo, pior que ficar sem emprego o pior são as reduzidas perspectivas de voltar a ter um posto de trabalho a curto prazo com características idênticas. A rigidez do mercado de trabalho faz com que a maior parte das pessoas tenha-se dedicado a um conjunto limitado de tarefas anos a fio, como se costuma dizer, não sabem fazer mais nada. A baixa formação profissional e os constantes incentivos para não levantar ondas tornam a perspectiva de fazer algo diferente simplesmente irreal. Nas pessoas mais velhas isto agrava-se ainda porque a desabituação à mudança é mais prolongada, a escolarização mais baixa e a rigidez mental naturalmente mais elevada.

A queda no infortúnio, a perspectiva do desemprego de longa duração, as contas para pagar, a poupança quase nula. Num desespero como este é mais fácil acreditar nos populistas que falam mal dos patrões, dos bancos (lembram-se de Sampaio?) ou pura e simplesmente no infortúnio. E além disso há sempre um facto que é muitas vezes desvalorizado mas que penso ter uma importância substancial. Falo daquela quantidade de seres rastejantes cujo único talento que se lhes conhece é a capacidade de se manterem sempre à tona de água. Em qualquer instituição, empresa, instituto, agremiação, há sempre um conjunto de indivíduos que pouco faz, que pouco sabe fazer, mas que se manobra com eficácia nos meandros do poder local. São aqueles que escapam aos grandes despedimentos e quando são forçados a sair fazem-se pagar bem caro, que saem beneficiados nas reestruturações. Mesmo que se tratem de excepções, em termos de exemplo são a regra. Todos os conhecem, falam deles nas costas e os mostram como o exemplo acabado de que o sistema não funciona por mérito ou pelo trabalho realizado mas apenas pela imagem e por manobras de bastidores.

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Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Guerra cultural (1)

Na última revista Atlântico encontra-se um artigo que expõe alguns pontos de vistas do movimento “Compromisso Portugal”. Creio que não é exagero afirmar que já li as soluções ali apresentadas algumas centenas de vezes, com uma ou outra alteração, indo um pouco mais longe ou ficando aquém. E penso que a maioria dos leitores desta revista poderão dizer o mesmo. Há a ideia generalizada neste círculo de comunhão intelectual de que a mensagem ainda não passou para o grande público, o que não deixa de ser verdade, por isso há que insistir ainda muito mais. Mas a insistência não significa a repetição da mesma coisa vezes sem conta com poucas ou nenhumas alterações na forma.

Na página 20 da Atlântico de Agosto, a propósito da legislação laboral, consta o seguinte: «O objectivo deverá ser o de oferecer aos trabalhadores um outro tipo de segurança – a verdadeira segurança que lhes pode dar um ambiente económico mais dinâmico, mais recompensador das qualificações e do mérito e livre da sombra do desemprego de longa duração, onde seja possível aceder a mais e melhores empregos –, em vez da segurança ilusória da lei, materializada na vinculação ao mesmo posto de trabalho por toda a vida.» É explicado como se consegue isto? Vagamente e pela forma negativa. Um pouco mais à frente aparece: «O aumento das exportações dependerá da melhoria da competitividade dos produtos e serviços produzidos em território nacional. Ora, acontece que os custos unitários do trabalho em Portugal evidenciam uma tendência pouco positiva face aos nossos concorrentes.» E continua nesta linha de discurso, que chamaria de “economês macro”.

É objectivo desta série de posts mostrar que este tipo de discurso é presa fácil dos populismos de esquerda e direita, ecoando apenas junto àqueles que já estão plenamente persuadidos e, pela negativa, sobre os que nunca ficarão convencidos. O discurso populista é mais apelativo precisamente porque fala directamente às pessoas, às suas preocupações e sobre as suas situações concretas. Já o “economês macro” prefere falar em termos agregados, de indicadores globais, de pessoas que são reduzidas a números e de números que se reduzem a médias. As conclusões que daqui são retiradas para o indivíduo são tão genéricas e abstractas que se aplicam um pouco a todos mas ninguém se revê nelas. A efectivação do discurso só será possível se o enfoque passar a ser nas pessoas e nas suas acções. Contudo, a maior parte dos economistas irá fugir disto a sete pés com receio de serem considerados demasiado «austríacos».

MC

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Sexta-feira, Julho 27, 2007

A cultura da cretinice

Este post foi um comentário este post do Hélder , que depois foi publicado também n’ O Insurgente. Volta aqui a ser publicado e reeditado.

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Os portugueses estão a tornar-se claramente mal intencionados. É uma tendência genérica do mundo ocidental que, como se sabe, é pródigo em alimentar aqueles que o querem destruir por dentro e, não raras vezes, através do exterior. Há umas décadas atrás os portugueses podiam ser descritos por uma série de características negativas. Um povo analfabeto, de alcoólicos, com crenças que hoje nos parecem inacreditáveis, onde a utilização da violência era a primeira medida para impor respeitinho. Por incrível que pareça, os tempos que correm são bem piores.
Continuamos a ser um povo de analfabetos funcionais, onde licenciados não conseguem interpretar textos simples mas acham que adquiriram automaticamente o direito a um emprego bem pago. Os analfabetos de outro tempo, que ainda tinham coragem de dizer “não sei”, foram substituídos por um tropel de escolarizados que acham que já tudo sabem e se esforçam por nada mais saber. Os alcoólicos de antes, ignorantes e criados com “sopas de cavalo cansado”, foram substituídos por universitários que acham que o paroxismo da vida académica encontra-se com um copo na mão.
No passado, o povo tinha no seu quotidiano a utilização de mezinhas e pedidos ao além, mas o de hoje não passou a ser mais racional. Jornais e revistas não dispensam o horóscopo. As mezinhas de antigamente foram substituídas por doutos conselhos médicos que, se todos somados e confrontados ir-se-iam anular em grande parte, prescrevendo um jejum quase completo ou um enfartamento mortal por forma a atingir a saúde perfeita em todos os domínios, providenciada pelas propriedades miraculosas dos mais diversos alimentos, de preferência os de origem exótica. O racismo contra africanos foi substituído pelo antiamericanismo. As crenças no além foram substituídas pela crença no Estado nosso Senhor, e pela fé nas alterações climáticas, com consequente veneração do arcebispo Al Gore.

O respeitinho está aí de novo em força, mas se antes era explícito, previsível, hoje aparece de inúmeras formas, mascarado como a necessidade de aplicar os valores da modernidade, que não só urge cumprir com penalizar quem lhes está à margem. A violência não diminuiu, pelo contrário, mas ganhou novas matizes. A insegurança aumenta e só não é mais patente porque outras preocupações a fazem diluir na memória. A violência ganhou sobretudo uma sofisticação psicológica, que começa a ser visível nos primeiros anos de escola. Há 15 anos atrás as crianças ainda brincavam horas a fio nas ruas e se de manhã podiam brigar, na parte da tarde já tudo estaria esquecido. Às crianças de hoje foi-lhes vedada, por diversos motivos, a socialização espontânea. As valências prometidas sobre o ensino pré-escolar e a respeito dos novos métodos de ensino não foram cumpridas. Se nada aprendem os nossos jovens, pelo menos dominam os métodos de exercer a pior violência mental sobre os seus colegas e professores, por vezes durante meses de forma recorrente. Os mais afoitos já perceberam até que ponto podem partir para a violência física, sabendo que vivem sob um paradigma que nunca os responsabilizará.

Os pais que antes diziam aos educadores para baterem nos filhos sempre que tal fosse necessário, no fundo da sua ignorância estava o desejo de darem à sua prol um futuro melhor que aquele que tinham tido, estando conscientes dos maus caminhos que só podiam ser evitados com disciplina. Nos pais de hoje não se percebe qualquer objectivo, nem para si nem para os seus filhos. Prisioneiros do niilismo, esqueceram as palavras de Platão, de que é pior cometer o mal do que o sofrer. Não agem, reagem quando acossados. A realidade para eles é uma afronta, e apontar as falhas patentes dos seus filhos é sentido como um insulto que se tem de retribuir da forma mais dura que lhes for possível.

Muito mais podia ser avançado a este respeito, a honra que foi substituída pela mentira rotineira, os velhos que se passaram a colocar nos lares para morrerem, a explosão das maleitas do espírito, a falência da Justiça e a fraude da Segurança Social. Urge deixar de lado as palavras mansas. É preciso assumir que não há forma de tratar ou simplesmente descrever certas pessoas a não ser utilizando palavrões. As nossas energias devem ser entregues àqueles que se esforçam por ser respeitados.

MC
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Sexta-feira, Julho 20, 2007

Foram os liberais que perderam as eleições

Após e até antes cada desaire eleitoral dos partidos mais à direita do espectro eleitoral português, aqueles que se consideram liberais aparecem a falar na crise da direita, que esta não se reforma, que não tem novas ideias, que não incorpora em si os princípios liberais. Mas, questiono, porque haveriam os partidos ir ao encontro do liberalismo? É certo que as ideias têm consequências mas as de cariz liberal, por melhores que sejam, têm de combater outras de sinal oposto bem como adaptar-se ao constrangimento democrático. É fácil criticar os políticos por serem populistas, demagogos e não arriscarem num discurso e, sobretudo, numa prática que coloque em causa algumas das premissas fundamentais do Estado social. Nas condições actuais, o jogo político acaba por ser uma tragédia dos comuns em que o primeiro a propor seriamente o fim do “statu quo” irá inevitavelmente perder as eleições. E mesmo depois das eleições ganhas com maioria absoluta, a margem de manobra para efectuar rupturas é escassa.

Penso que chegou a altura de liberais e conservadores assumirem a responsabilidade por não terem feito o suficiente para quebrar a hegemonia socialista no pensamento corrente. Cabe em grande parte aos liberais, porque verdadeiros conservadores parecem ser ainda mais raros que estes, trabalhar no sentido de criar uma corrente de fundo suficiente para que não seja suicida a estratégia dos partidos de direita e até da esquerda moderada a adopção de práticas liberais.

Pior que o pecado de omissão foram três atitudes que alguns liberais assumiram e que contribuíram activamente para a consolidação do paradigma socialista. A mais evidente foi o empenho na causa abortista, quando foram atempadamente e repetidamente avisados que não estava verdadeiramente em questão uma despenalização da IVG, que na prática já era quase total, mas a estatização do acto. Os comunistas odeiam mais o PS que os partidos da direita. De forma idêntica os liberais preocupam-se com toda e mais pequena falha nos partidos na direita sendo incomparavelmente mais benévolos para a esquerda, em especial o PS. Por isso Sócrates teve um estado de graça durante meses a frio, passando semanas sem que os blogs liberais lhe dirigissem uma crítica e, de repente, todos parecem surpreendidos com a péssima gestão do executivo os tiques pidescos. Outra atitude gravosa é o distanciamento da realidade que alguns liberais se forçam. É certo que a maior parte das questões que urge trazer a lume para o grande público são elementares e pouco estimulantes em termos intelectuais. É um verdadeiro trabalho de sapa que não cativa certos liberais, que gostam apenas de debater pormenores intrincados e orgulhando-se até de dizer que são assuntos que pouco sentido têm fora do círculo de debate liberal.

Várias vozes já se levantaram a pedir uma maior consequência das ideias liberais, o que levou há uns meses o surgir duma discussão em torno da criação de um partido liberal. Não tendo o assunto ficado fechado, a maior parte das posições tendeu para o lado de ser preferível influenciar os partidos existentes. Mas, sendo assim, o que foi feito nesse sentido? Para alguns o progresso tem sido notável. Alguns blogs liberais têm um apreciável número de visitas diárias e, através disso, têm sido fonte de recrutamento para os media tradicionais. Temos também uma publicação, a revista Atlântico, que se consolidou e está aí para ficar. Mas terá isto quebrado a hegemonia das esquerdas? Na realidade penso que se conseguiu afirmar um espaço frequentado sempre pelos mesmos e que tem um impacto quase nulo fora deste círculo.

A conclusão é que se torna necessário fazer muito mais e de forma substancialmente diferente. Algo óbvio é a criação de um “think tanks” liberal, como já em tempos aqui escrevi. Perguntam alguns para que serve a criação de mais um centro de estatísticas, apesar de se poder conceber um espaço mais vocacionado para análises qualitativas, senão mesmo filosóficas. Se as ideias liberais estão correctas então os números irão mostrar concordância. E é preciso assumir claramente o objectivo de “produzir” alguns números que sejam apelativos o suficiente para os jornalistas os transformarem em “sound bytes”, ao mesmo tempo que os mais curiosos também possam ter à sua disposição estudos credíveis que suportem as ideias chave avançadas.

A revista Atlântico surpreendeu-me por não ter desaparecido rapidamente, face à sua natureza. Sou leitor assíduo e tenho bastante consideração por algumas pessoas que para lá escrevem. Mas fica aquela sensação de ser apenas o possível. A revista precisava do triplo das páginas, com secções de investigação sobre situações concretas e espaço para artigos realmente de fundo com uma dúzia de páginas, para além de uma miríade de pequenas coisas que pudessem cativar vários públicos. Trata-se de um nível completamente diferente do actual, que necessitaria de um forte impulso que não faço ideia de onde possa vir.

As iniciativas “olhos nos olhos” deviam também ser rotineiras. Só conheci duas de origem liberal, o Café Blasfémias e as noites da Direita Liberal. Foram ambas abortadas, não tendo conhecido as razões mas penso que foi a constatação de que não vale a pena tanto esforço para resultados tão parcos. Iniciativas como esta pouco transpiram para a comunicação social e o pouco que surge trai o que de fundamental lá se passou. Este tipo de iniciativa será potenciado pelos pontos enunciados nos dois parágrafos acima, mas isso não deve ser desculpa para ficar à espera das condições ideais.

Finalmente, penso que há que colocar alguma estratégia no funcionamento dos blogs. Para além da análise breve da actualidade, há matérias mais intemporais que merecem ser revisitadas vezes sem conta. Ora, o funcionamento dos blogs faz com que seja muito difícil distinguir entre diferentes tipos de posts. Alguns merecem ser bem reflectidos, relidos, outros basta apenas uma vez. Assim os blogs correm o risco de ser um “brainstorming” permanente, sem tempo de assentar ideias, o que explica a maior parte dos comentários evidenciar um total desconhecimento das noções mais básicas do liberalismo. A questão não está nos blogs deixarem de ser o que são mas passarem a ser mais. Encontrarem formas de mostrar que pretendem chegar a algum lado e quem os lê poderá ter material suficiente para tirar algumas conclusões mais abrangentes. Outra possibilidade está em utilizar os blogs como forma de potenciar projectos paralelos. Esta recomendação pretendo eu mesmo aplicá-la, de forma necessariamente modesta, mostrando os primeiros resultados até ao final do ano.

MC

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Sexta-feira, Julho 13, 2007

Mau demais para ser verdade

Existe uma quantidade de «mal» que o ser humano pode conceber no seu espírito. Acima dessa quantidade o homem deixa de classificar o mal como mal e passa a vê-lo como outra coisa qualquer. Pode mesmo entrar em fase de negação, recusando aceitar o evidente. É-nos relatado que a entrada nos campos de concentração nazi era sentida por muitos prisioneiros como irreal, não queriam acreditar, pensavam ser um engano que a qualquer momento iria ser desfeito. Alguns até conseguiam brincar com a situação. Quem também já lidou com mentirosos compulsivos sabe que é incomparavelmente mais fácil ficar desapontado com alguém que foi apanhado apenas numa mentira isolada. Ao mentiroso compulsivo dá-se crédito esperando que ele se modifique, ao ponto de deixar de o recriminar quando ele mente e passar a recompensá-lo quando ele tropeça na verdade. Por outro lado, podemos perder a confiança em alguém para sempre devido apenas a uma mentira, mesmo que inocente.

Desconheço as razões profundas de ser tão difícil conceber o «mal» para além de um determinado limiar. Suponho que seja algo inerente ao ser humano e não apenas uma característica adquirida socialmente. Provavelmente, se o mal em grande escala fosse facilmente concebível muitos seriam os que não resistiriam à tentação de o colocar em prática e a espécie humana já estaria extinta. A globalização abre perspectivas únicas para a prática do mal em larga escala. A combinação é explosiva porque quanto maior é o tamanho da ameaça mais difícil será acreditar nela e, por isso, enfrentá-la.

Vejamos algumas situações onde isto se aplica. Talvez ainda alguém se lembre do caso entre Marcelo Rebelo de Sousa e o governo de Santana Lopes. Ao certo só sabemos das declarações de alguém próximo de Santana Lopes a pedir um espaço para contraditório. A reacção fez lembrar a que ocorreu a pretexto das caricaturas do Profeta publicadas no jornal dinamarquês. Acusações de pressões inaceitáveis, chantagem sobre um canal de televisão, tentativa de implementar a censura. Desde o cidadão anónimo ao Presidente da República, da esquerda à direita, a indignação foi generalizada. O novo governo iniciou funções e Sócrates não só pediu um espaço para fazer contraditório a Marcelo Rebelo de Sousa como tratou de providenciá-lo na RTP, naquele programa patético onde António Vitorino tem o prazer de se fazer ouvir. Os indícios de tentativa efectiva de censurar, de pressionar vozes discordantes ou desconfortáveis abundam neste governo, como se sabe. Mas as reacções estão bem longe de atingir as do tempo de Santana Lopes. Aqueles a quem só faltou arrancar os cabelos para falar diatribes em Santana se agissem proporcionalmente teriam agora de se imolar pelo fogo na praça pública.

A reacção ao terrorismo é também um bom exemplo das dificuldades em conceber o mal. Se prestarmos atenção, a maior parte das críticas que se fazem ao combate ao terrorismo não se prendem com a estratégia. É perfeitamente legítimo argumentar que determinadas acções são pouco eficazes, que outras são contraproducentes ou que têm custos demasiado elevados. Contudo, este tipo de críticas fundamentadas constitui uma minoria. A maioria parte da premissa implícita que não é necessário combater o terrorismo. A ameaça é desvalorizada e todos os atentados que ocorreram têm uma explicação lógica. Os americanos foram atacados porque andaram a pedi-las, os espanhóis e os ingleses porque se puseram ao lado dos americanos. Guarda-se um precioso silêncio sobre os atentados ocorridos em países muçulmanos e os abortados um pouco por toda a Europa, mesmo sobre alguns campeões do antiamericanismo.
Agora um caso mais difícil. No fim-de-semana passado o mundo deu as mãos para salvar o planeta. Aparentemente as pessoas que se mobilizaram para defender o planeta conseguem conceber o mal em grande escala e lutar contra ele. Falta esclarecer um ponto. O que é difícil de conceber é um mal real, não um imaginário, mistificado ou ligado a algum tipo de transcendência. O que os “defensores do planeta” fazem é apenas um julgamento pueril, identificando uma relação simplista causa / efeito que tudo explica e onde se pode fazer uma atribuição de culpas directa, que pode ser ao homem ocidental, ao capitalismo, às grandes empresas, ao Bush ou a qualquer outro demónio. Há aqui apenas um jogo de ilusões para tolinhos. A dificuldade em conceber um mal em larga escala é até mais evidente que nos outros casos. Seja qual for a realidade sobre o aquecimento global as alterações climáticas, temos em mãos um movimento que configura um dos maiores embustes da história da humanidade. A dificuldade em conceber o mal é de tal forma patente neste milhões de fiéis ecologistas que os leva a ser ardorosos veículos de transmissão da mentira. A alternativa, considerar que os milhares de notícias que são espalhadas por dia no mundo sobre o assunto são falsas ou deturpadas, é de tal forma monstruosa que não pode ser verdade.

Sociedades inteiras foram acreditando nos mais diversos disparates, que vistos à distância nos parecem inconcebíveis. Como deixaram de acreditar naquelas coisas? Por reconhecerem o erro? Não, fazendo uma travessia do deserto. O exame de consciência é algo que apenas algumas pessoas fazem. A velha crença é abandonada e a ela sucede um esquecimento. Passados alguns anos é como se ninguém tivesse acreditado naquelas coisas, como se remontassem a um passado distante onde ninguém pode ser responsabilizado. Daqui a uns anos a histeria do aquecimento global vai terminar e ninguém vai lembrar-se que foi um fervoroso apoiante da causa. O que foi feito dos milhões de maoistas que pululavam por essa Europa fora?

MC
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Sexta-feira, Julho 06, 2007

Candidatos a líderes de opinião

N’ O Insurgente, Patricia Lança divulgou alguns estudos sobre riscos de práticas sexuais como o sexo oral e anal. Alguns dias depois, Patricia Lança colocou uma pedra no assunto por estar cansada do falatório que se gerou. Pensei que se tinha tratado apenas dos esperados comentários jocosos sempre que matérias sexuais entram em cena, mas depois fui tropeçando numa série de posts sobre o assunto um pouco por todo o lado. Percebi que não se tratou de um epifenómeno mas de mais uma manifestação da contaminação no espírito das classes progressistas presentes em todos os credos políticos.

Como reagiria uma pessoa adulta e equilibrada sobre esta questão, supondo que considera importante manter na sua actividade sexual práticas anais e orais? Em primeiro lugar iria mostrar interesse, porque diz respeito a condutas que tem por rotineiras. Depois iria tentar cruzar estes dados com outros fidedignos, para poder fazer uma avaliação crítica. Caso se chegasse à conclusão que aquilo que veio a luz aponta para um risco acrescido, até aí desconhecido, impõe-se uma decisão. Decisão essa que pode ser manter exactamente os mesmos hábitos, por se considerar que se perde mais em alterá-los do que em os manter. Outras opções são a utilização de cuidados acrescidos, redução da frequência de certos actos e, no limite, a sua abolição, para não falar daqueles que até ficam mais tentados pelo risco. Tudo isto sem dramas mas assumindo as responsabilidades pelas suas opções.

Contudo, a quase totalidade das reacções assemelharam-se à da criança mimada que faz birra porque lhe tiraram o brinquedo favorito. A questão de fundo, exposta no parágrafo acima é totalmente elidida, o que interessa é denunciar os supostos planos maléficos de Patricia Lança, uma cruzada moralista, um preconceito anacrónico contra a homossexualidade. Mesmo que existisse uma intenção moralista e um preconceito contra o homossexualismo, o que é que isso alteraria a questão? É apenas relevante a qualidade dos argumentos e a clara distinção entre factos e palpites.

Este assunto merece ser comentado porque envolveu inúmeros candidatos a líderes de opinião, que hoje em dia se começam a recrutar nos blogs. Se eu disser ao Zé Tó do café da esquina que beber demasiada cerveja pode trazer-lhe problemas de saúde, ele certamente irá responder-me com um sonoro arroto. Em que se diferenciam estes bloggers progressistas (que hoje em dia já se encontram em todos os credos políticos) do Zé Tó , quando ao mínimo confronto com ideias que não lhes agradam também respondem com “arrotos mentais”?
Na realidade estou a ser injusto, existe aqui uma pretensão clara de afirmação que recorre aos meios mais eficazes que tem à sua disposição. Dizia Pacheco Pereira na “Quadratura do Círculo”, que o comportamento do Primeiro-ministro era o típico autoritarismo dos fracos. Quem ocupa locais de poder pode exercer esse autoritarismo de forma directa e fazê-lo reflectir em várias direcções por uma espécie de osmose, de forma mais ou menos dissimulada. Os candidatos a líderes de opinião que proliferam nos blogs em geral têm tanto poder como o comum cidadão, por isso necessitam de um simulacro de poder. Conseguem-no denegrindo e humilhando alguém a propósito de um assunto que desperte atenção. A destruição de carácter funciona nas duas direcções, obviamente diminuindo o acusado mas também colocando o acusador num patamar acima do qual realmente ocupa. A delação anónima ainda continua a ser mal vista, sinal de cobardia. Contudo, a delação frontal é hoje tomada como prova de força, audácia e discernimento. A consciência crítica diminuiu a tal ponto que hoje é valorizado o próprio acto de denúncia em si sem ligar aos seus fundamentos. Obviamente que isto configura uma sociedade numa constante fuga para a frente que mais tarde ou mais cedo irá ter um choque abrupto com a realidade.

MC

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Segunda-feira, Julho 02, 2007

5 Livros

Coloco este post excepcionalmente à segunda-feira para responder ao repto do Hélder, ilustre membro de um dos blogs mais importantes da nossa praça, O Insurgente. Divulgo os últimos 5 livros que li, sem uma ordem temporal precisa.
“Socialism”, Ludwig von Mises – Por várias vezes tenho pensado que este talvez tenha sido o livro mais importante escrito no século XX. Foi o livro que afastou Hayek do socialismo e se isso não tivesse acontecido, “Road to Serfdom” nunca teria sido cogitado. E sem essa contribuição a revolução liberal de Reagan e Tatcher teria sido mais complicada, sendo incalculável até que ponto estaríamos um hoje mais pobres e menos livres. Mais do que ler este livro, vou andar a estudá-lo nos próximos meses. Até ao final do ano pretendo colocar uma série de posts que resumam “Socialism”, apesar do objectivo fundamental ser a obtenção de “insights” num estudo aprofundado sobre totalitarismo que descrevi alguns pormenores aqui.

“O Mito do Eterno Retorno”, Mircea Eliade – Para as civilizações arcaicas a realidade é a imitação do arquétipo celeste. O tempo profano é abolido e o homem projecta-se num tempo mítico em que os arquétipos celestes foram pela primeira vez revelados. A existência consiste num eterno retorno consumado nos rituais e actos importantes. A História, a série de eventos irreversíveis, é negada. O povo hebraico foi o primeiro a conceber um Deus que intervém dando sentido aos acontecimentos históricos. Contudo, mesmo depois da elaboração da filosofia da história por Santo Agostinho, a maior parte das populações cristãs, até hoje, tem dificuldade em aceitar a irreversibilidade dos eventos.

“Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes”, Roger Scruton – Porquê para pessoas inteligentes? Apesar de nem sempre as passagens serem fáceis, Scruton evita complicações desnecessárias tanto quanto possível. Fiquei com a sensação que o autor chama inteligentes às pessoas que têm a audácia de fazer as mesmas interrogações que ele. Ao ler a apresentação do livro fiquei com a ideia de que se tratava de um discorrer de vários temas sem grande relação entre eles. Contudo, trata-se de uma construção progressiva onde os temas mais profundos vão sendo desvendados com a ajuda dos predecessores. Apesar de os comentários ao livro situarem Scruton na esteira de Kant e Wittgeinstein, quem o conhece sabe que temos antes de tudo um admirador de Edmund Burke.

“As Putas do Diabo”, Armelle Le Bras-Chopard – Leitura após ter lido a crítica de Rui de Albuquerque no Portugal Contemporâneo.
Vale pela hipótese levantada sobre quem realmente tomou as rédeas da Inquisição. Contrariando a opinião comum, defende-se que a Inquisição foi sobretudo dominada pelo poder secular quando construía o Estado moderno. Figura central foi Jean de Bodin, que concebeu importantes livros políticos mas, o que poucos sabiam, também escreveu um tratado sobre «demonologia», onde defendia a estatização dos processos judiciais.

“Logoterapia e Análise Existencial”, Viktor E. Frankl – Não confundir com literatura de auto-ajuda. A Logoterapia, criada por Viktor Frankl, é considerada a terceira escola de psicoterapia. O que distingue a Logoterapia de outras formas de psicoterapia é o seu enfoque na busca de sentido. Devido a isso teve de sofrer o desprezo e o escárnio de psicanalistas, marxistas, pragmatistas, estruturalistas, desconstrucionistas e outras tribos do género, estes sim, autênticos criadores de mazelas do espírito. Contudo, Frankl não desprezou a psicanálise de Freud nem a psicologia da Adler nem sequer rejeitou a validade dos fármacos, uma vez que era um homem de ciência, neurologista e psiquiatra. Só que achava que isso não era tudo, a busca para o sentido da existência abriria outras portas para a cura do indivíduo. Uma visão do ser humano que foi testada da forma mais bárbara quando Frankl foi prisioneiro dos campos de concentração nazi.
Deveria agora colocar uma lista de bloggers a quem lançaria um desafio idêntico. Contudo, o serviço de difusão em redes “mesh” é efectuado com mais eficácia por servidores de maior capacidade.
MC
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Sexta-feira, Junho 29, 2007

Provocações várias

A EUROPA A CAMINHO DO TOTALITARISMO

O documentário sobre Durão Barroso, que a RTP passou esta semana, conteve várias pérolas. Destaco apenas uma. A certa altura sobre os franceses que votaram contra o tratado constitucional disse-se serem «antieuropeus». Note-se que falamos do “voz off”, supostamente veiculando uma opinião imparcial e objectiva. São pequenas «achegas» como esta, omnipresentes no discurso jornalístico, que criam valores artificiais e tendências a que todos nos teremos de vergar, mais cedo ou mais tarde, que é como quem diz, ou a bem ou a mal. A adjectivação e a categorização utilizadas no momento certo são poderosas armas na luta contra a inteligência. Afinal, porque razão o voto contra um projecto de constituição é significa ser contra a Europa? Não será possível ser europeísta e simultaneamente céptico sobre certos caminhos que a União pode tomar? Aliás, não será mesmo uma obrigação?



SAI MAIS EUTANÁSIA

O debate aí está, desinteressante até à medula. E o que dizer sobre o actual estado da profissão médica? Qual o motivo para o respeito pelo «senhor doutor» estar a perder-se? A resposta é simples, os médicos já não se dão ao respeito. O respeito têm-se por pessoas que seguem uma ética acima da mediania. Apesar da maior parte dos portugueses terem votado favoravelmente um projecto abortista, ou terem-no deixado passar por se terem omitido, aos poucos irão perder respeito pelos médicos que fazem todo o tipo de abortos sem protestar, mesmo que as motivações sejam as mais fúteis, como tantas vezes são. De forma semelhante, a eutanásia irá tornar-se prática comum, aparecerá um vasto conjunto de médicos a falar da morte com toda a naturalidade. Por mais sofisticado que isto pareça, o comum dos cidadãos intuirá ali uma mentalidade de adolescente arrogante que não sabe nada da vida e, logo, nada merecedor de respeito. E cada vez mais pessoas vão se apercebendo que muitos médicos são uns sacanas descomunais, militantemente incompetentes e desactualizados, prescritores de medicamentos de segunda com os quais estão comprometidos e angariadores de operações desnecessárias apenas em proveito das suas contas bancárias. Não se deve desvalorizar o desaparecimento de um valor como o respeito. Tendo este sido já perdido em relação a padres, polícias e professores, o que restará? Adulação aos políticos e jornalistas? Estamos bem encaminhados, estamos…


E SE O ESQUERDISMO FOR UMA SOCIOPATIA?
Cada vez mais inclino-me para a hipótese do esquerdismo ser uma sociopatia. Para quem já se considerou de esquerda, como o autor deste post, mesmo sem ter aderido a qualquer partido ou movimento, não se trata de uma hipótese confortável porque nos leva, no mínimo, a admitir os vícios de raciocínio passados e perceber até que ponto estivemos perto, se não dentro, de uma loucura circular que nos acabaria por aprisionar até ao resto dos dias. Os indícios desta hipótese são inúmeros mas iria neste post deter-me apenas num.
A memória selectiva não é apenas apanágio da esquerda. Se a utilização da memória não fosse maioritariamente selectiva o ser humano rapidamente entrava em ruptura porque viveria numa constante abertura ao Todo e este estado de permanente iluminação rapidamente iria queimar o filamento da alma. Trata-se antes de uma mentalidade selectiva a característica que pretendo salientar. Mais que uma dualidade de critérios, que tem reminiscências para as arbitragens de futebol, a atitude esquerdista será antes bipolar. Pensemos na forma como os esquerdistas encaram os seus adversários. Existe uma facilidade enorme em colocar sobre eles toda uma série de acusações, mesmo sobre factos ou “factos” ocorridos muito antes do seu nascimento. No mínimo dos mínimos irá se recuar até à Inquisição e o adversário do esquerdista irá ter logo um odioso em cima como se ele mesmo tivesse condenado milhares de mulheres inocentes à fogueira. As acusações de fascismo e nazismo serão também inevitáveis, em especial quando se colocam em causa as pretensões igualitaristas do socialismo. O esquerdista tem a tentação incontrolável de ver isso como saudosismo dos campos de concentração. Qualquer tentativa de avaliar a História de forma imparcial será denunciada pelo esquerdista como prova de admiração por Salazar, por Pinochet e, mais recentemente, por esse tal de Bush. O adversário do esquerdista será também racista, homofóbico, imperialista, machista, reaccionário. Tudo epítetos que o esquerdista pensa resumirem bem o pensamento conservador ou neo-liberal.
Por outro, lado o esquerdista vê-se a si mesmo da forma mais imaculada possível. Apenas ele e os seus correligionários têm uma autoridade moral legítima, todos os outros são desprezíveis hipócritas. É extremamente curiosa a forma como os esquerdistas avaliam os crimes e erros revolucionários. Os mais inaptos avançam com a desculpa estafada de terem sido os homens a falhar e não as ideias. Este jogar à defesa convida a analisar as ideias e qualquer esquerdista rodado não irá por aqui. Por vezes, um longo silêncio basta e depois muda-se assunto. É impressionante como esta manobra elementar resulta mesmo em certos contextos, apesar de não todos. Um silêncio que não admite nada, obviamente, mas as pessoas minimamente educadas não irão aproveitar-se daquele aparente gesto de humildade.
Mas uma estratégia mais eficaz é jogar ao ataque, apontar falhas no lado oposto, reais ou imaginárias. Uma variante especialmente ardilosa é acusar os adversários das suas próprias falhas, o que psicologicamente pode mesmo dar azo a uma transferência do odioso. Os mais requintados jogam ao ataque de forma dissimulada. Começam a justificar as falhas do processo revolucionário com base em pormenores obscuros que quase ninguém ouviu falar, o que os permite monopolizar momentaneamente a discussão. Depois disso, com alguma arte retórica, é fácil construir uma teoria que dê a volta ao prego. Mas há ainda uma forma mais crua de lidar com o processo, simplesmente não admitir quaisquer falhas, mesmo nos crimes mais monstruosos, considerando que se tratou de uma etapa necessária à construção de um futuro radiante. Esta crueza é bastante comum dentro de certos grupos revolucionários, apesar de raramente ser utilizada para o exterior por razões óbvias.
O perfil aqui traçado do esquerdista, nada difícil de conferir, caso fosse atribuído a qualquer outra pessoa daria origem a um diagnóstico inequívoco.

ECLETISMO AUTO-LIMITADO
Apanho num zapping uma jovem afirmando-se muito eclética por ouvir rádios tão diferentes como a Mega FM, a Comercial e o RCP. Para o pessoal das tribos urbanas, que pensa e age em função de marcadores pavlovianos, talvez tenha sentido fazer esta destrinça entre rádios que transmitem essencialmente a mesma coisa. Mas eu ainda sou do tempo em que para se ter gostos ecléticos em termos musicais devia-se ouvir música erudita, jazz, música tradicional, música étnica, bossa nova e o vulgar pop/rock. Afinal, o azul, mais escuro ou mais claro, do céu ou dos olhos de uma bela mulher, continua a ser sempre azul. O que me despertou a atenção foi a utilização do termo «eclética», que me fez supor uma jovem com formação universitária. Longe de ser um exemplo isolado, ajuda a confirmar a ideia de que a universidade moderna forma pessoas que conseguem simular a posse de um pensamento sofisticado, quando na realidade são totalmente incapazes de um raciocínio rigoroso e de uma avaliação objectiva da realidade.
MC
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Sexta-feira, Junho 22, 2007

O desinteresse em relação à política

O actual desinteresse geral pelas questões políticas é uma situação de risco. Apesar de vivermos situações que não auguram nada de bom ou talvez por isso mesmo, a nossa época é bastante interessante para fazer análise política. Até há pouco tempo o desinteresse parecia ser apenas pela vida partidária. Convenhamos que esta não se tem mostrado dignificante. Se retirarmos a estas lides os insultos entre partidos ou entre facções do mesmo partido, a demagogia em relação aos eleitores e as manobras de bastidores ou encenações públicas em busca de poder, não irá sobrar muito mais.

Contudo, têm aparecido indícios de que este desinteresse não só é mais vasto como alvo de militância. Convém lembrar que originalmente a política correspondia tudo o que se referia à “polis”, pelo que a afirmação de Aristóteles de que o homem é um animal político quer dizer, antes de mais, que o homem é um animal social. E se o homem está condenado a viver em sociedade isso leva-o forçosamente a debruçar-se sobre as questões políticas, sob pena de aderir voluntariamente à alienação. Este alheamento deliberado da coisa pública significa a perda de ligação ao outro, no máximo os laços permanecerão dentro de um estreito grupo composto por familiares e amigos. Se é certo que a “mão invisível” pode fazer milagres mesmo entre egoístas e gananciosos, é imprescindível um nível mínimo de confiança para uma sociedade poder funcionar.

A atitude de alienação em relação à política que mais apreensão devia causar prende-se com a ideia de que os governos devem ter poderes quase ilimitados porque foram legitimados pelo voto. Existem aqui algumas reminiscências ideológicas, já que se concede estas veleidades com muito maior facilidade a governos ditos de esquerda do que a outros conotados com a direita. Basta atentar no à vontade que se fala desta legitimidade totalitária conferida pelo voto em relação a Sócrates, Hugo Chávez ou Salvador Allende, enquanto o voto parece ter perdido toda a validade quando consagrado aos anteriores governos PSD/CDS, a George W. Bush ou a Margaret Tatcher. É provável também que esta vontade de dar poderes quase ilimitados a este nosso governo advenha, em parte, de uma saturação em relação a políticos sem coragem, que adiaram constantemente decisões importantes e se encolheram face à pressão das "ruas". Mas tal como o medo não é bom conselheiro, o alívio também não. E quando existe uma confiança ilimitada em relação ao poder é porque a confiança horizontal, entre iguais, se perdeu, o que prenuncia uma derrocada civilizacional. Os sinais de excessiva tolerância em relação aos abusos de poder são preocupantes.

Quando o governo de Sócrates tomou algumas decisões (ou as fez anunciar) em relação à Saúde, à Educação ou à Segurança Social e mostrou que não ia arredar pé, algumas hostes animaram-se e não hesitaram em classificar este governo de reformista. Mas rapidamente se percebeu que a marca deste governo não era o reformismo, uma vez que nada de fundamental se alterou ou está previsto modificar-se, mas sim o autoritarismo. Aqueles que fingem acreditar que este autoritarismo é a única forma de desbloquear o país, e por enquanto ainda estão neste grupo a maior parte dos portugueses, arriscam-se a passar um cheque em branco com consequências imprevisíveis.

Ou talvez não tão imprevisíveis quanto isso. Uma delas é o custo de um novo aeroporto. O governo e o PS sentem, ainda, que podem dizer e fazer o que quiserem sobre isto. Não é só o ministro Lino e as suas contradições e desvarios rotineiros. Esta semana um deputado do PS no parlamento falava na total inviabilidade da solução Portela + 1, numa altura em que se admite que essa solução ainda nem foi estudada com a devida profundidade.

Mas pode haver ainda um preço mais elevado a pagar, a própria liberdade. Ao governo não bastou ter uma comunicação social amestrada. A história do diploma de Sócrates revelou algo bem pior que as eventuais trapaças que possam ter ocorrido. Em qualquer país que tenha respeito por si mesmo, as tentativas que o governo fez de impedir a publicação em jornais de notícias sobre o caso seriam consideradas gravíssimas. Mas a situação que envolveu o autor do blog Portugal Profundo como arguido é paradigmática. É evidente que Sócrates não pretende esclarecer nada em tribunal, quando o caso chegar a esta instância já ninguém se vai lembrar. O que pretendeu foram os efeitos imediatos, ou seja, intimidar não só o autor do blog visado mas todos os outros que não mostrarem respeitinho.

O desinteresse pela política, como não podia deixar de ser, interessa aos maus políticos. Estes não temem acusações generalistas de que “eles são todos iguais”, pois conseguem ainda ter a lata de dizer que estão ali, ao contrário de outros, para servir e não para se servirem da política. Não se deve subestimar um mau político que chegou ao poder. Se ali chegou teve de ultrapassar muitas barreiras, ultrapassar inúmeros revezes, fazer alianças, trair, manipular, mentir com um sorriso cândido no rosto. A ultrapassagem de sucessivas etapas, que a sua inicial e patente mediocridade nunca faria supor serem possíveis, provoca uma estranha admiração e tentação de rendição ao "inevitável". E é nesta altura o ser humano revela o pior de si, a subserviência ao poder apenas porque qualquer outra opção acarreta maiores riscos.

MC
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Sexta-feira, Junho 15, 2007

O triunfo dos filhos da puta


No centro de Lisboa está em cena a peça “Querido Che”. Li também numa manchete de jornal que o PS recuou na lei totalitarista sobre o tabaco. Que relação podemos ver entre estes dois acontecimentos? Do ponto de vista deste vosso modesto escriba, não devemos ficar demasiado satisfeitos com o segundo à luz do primeiro. Quando a cultura popular, e o teatro é apenas uma emanação ligeiramente mais erudita desta, não se envergonha de elogiar símbolos de uma revolução que conseguiu suprimir quase todas as liberdades, devemos ter consciência que vivemos num contexto fortemente polarizado, dito de outra forma, num contexto onde a “filha da putice” é rainha e senhora. Aquando do primeiro referendo sobre o aborto, a alegria dos que conseguiram manter a situação como estava prometia logo ser de curta duração. Os partidários do abortismo livre não tiveram problemas em assumir que iriam insistir na questão até terem sucesso. E alguém só pode ter esta arrogância depois de ser derrotado quando sente que o vento está a mudar a seu favor.

Entre os muitos defeitos dos partidários das causas progressistas, o cinismo é um dos mais esquecidos. À medida que as suas causas vão ganhando protecção legal, afirmam que estão a lutar contra os poderosos. Insistem nas conspirações escondidas que nos dominam, ao mesmo tempo que ganham poder com as suas conspirações explícitas. Quando o New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, diz que uma entrevista com Noam Chomsky são duas horas de lucidez e este senhor, nitidamente esquizofrénico, não teve qualquer pudor em defender o genocida Pol Pot, podemos afirmar com bastante rigor que os filhos da puta têm bastante poder neste mundo.

O exemplo não é isolado. Meios de comunicação social de todo o mundo apaparicaram a revolução “chavista” em curso na Venezuela, bem como a subida ao poder do “operário” Lula. Quando Chávez ordena o encerramento de um importante canal de televisão e Lula aplaudiu, os media começaram a sentir-se confusos. É certo que a televisão em causa faz parte da oposição ao regime, mas mesmos os jornalistas mais vendidos às causas progressistas não deixaram de sentir que a sua classe foi atacada. Das suas uma, há aqui uma grande ignorância ou uma cegueira ideológica que não quis ver o óbvio. Para uma ditadura manter o poder, o essencial não são os militares mas o controlo da informação. Por isso era evidente que Chávez, com um declarado projecto socialista que diariamente vai desmantelando a democracia, iria mais tarde ou mais cedo optar por este caminho. E depois de afastados os jornalistas mais críticos, serão perseguidos os que não prestarem vassalagem total. Só quem não tem o mínimo conhecimento da história do século XX pode duvidar que assim seja.

Por cá temos uns patetas que, envergonhando-se de mostrar a sua admiração por Chávez, justificam tudo com a sua legitimação democrática. Da mesma forma, irritam-se com aqueles que criticam a OTA, a lei do tabaco ou a subsídio ao aborto porque são tudo coisas que resultaram da legitimação do voto. Chamamos imaturas as democracias onde os derrotados não aceitam os resultados das eleições e tentam dar a volta com um golpe de Estado. Em 30 anos Portugal conseguiu passar de uma democracia imatura, pensemos no PREC, para outra esclerosada. Não só aceitamos pacificamente os resultados eleitorais como a usurpação crescente de poderes por parte do Estado. Os filhos da puta triunfam porque já somos todos filhos da puta e, como escreveu Alberto Pimenta, o sonho do pequeno filho da puta é ser um grande filho da puta.

MC
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Sexta-feira, Junho 08, 2007

O mundo visto por alucinados

O telejornal da RTP, mas de certeza que outros serão semelhantes, é uma fonte inesgotável para saber como devemos pensar o mundo. Por exemplo, fiquei a saber que conflitos na China entre a polícia e estudantes devem-se às crescentes desigualdades entre ricos e pobres. Foi José Rodrigues dos Santos, o Dan Brown português, que o garantiu na “punch line”. Afinal é o capitalismo que já começa a fazer das suas, o malvado. Não se vai colocar a hipótese do regime ditatorial que vigora na China poder ter alguma influência na coisa. Apesar do regime ter aberto a economia, em termos políticos as limitações ainda são muitas. Além disso, até agora nada mostra que o partido comunista chinês está a desintegrar-se, pelo contrário, o capitalismo tem sido uma forma dele consolidar o poder.

Depois passamos à cimeira do G8. Percebe-se que os jornalistas já consideram Bush carta fora do baralho, esperando o senhor que se segue, uma vez que pouca energia gastam a fazer-lhe pirraça. O enfoque é o estender bem alto a bandeira das alterações climáticas. É curioso que na altura que a farsa do aquecimento global começa ruir por todos os lados, os jornalistas mostram mais que nunca o empenhamento em defender a mentira. A realidade é que o empenhamento que os políticos gostam de mostrar para combater o aquecimento global deriva apenas do trabalho execrável de pressão da comunicação social. A cara de pau de Durão Barroso é admirável. Critica os EUA, como não pode deixar de ser e diz de passagem que o Protocolo de Quito nunca foi cumprido. Mas que empenho magnífico este destes impolutos, tendo o protocolo sido assinado em 1999 e já ratificado por quase todos, mas ainda assim os resultados são quase nulos. Alguém acredita sinceramente neste embuste?

Mas na realidade isto é um pormenor insignificante comparado com o que Barroso disse de seguida. Ao que parece Bush terá concedido que a questão iria passar para o âmbito da ONU. Ora colocar os EUA na mão da ONU, caso acontecesse, significaria o fim do mundo livre. Quando a Europa já capitulou formalmente ao terrorismo, ao islamismo integrista e a todo o tipo de politicamente correcto, nos Estados Unidos vive-se uma intensa batalha cultural entre aqueles que querem conservar a civilização existente e os que a querem extinguir. O próprio Bush mostra que não é uma batalha entre conservadores e “liberais”, uma vez que parece jogar pelos dois lados. Entretanto a RTP já está a passar, depois do telejornal, um programa ambientalista que tem como referência Al Gore. É sempre reconfortante saber que o dinheiro dos nossos impostos está a ser gasto de forma sábia.

Adenda: Já esta noite vi uma doutora explicar a origem da violência entre os adolescentes. Os pais são os culpados porque andam na net e em sites de encontros. Coitada da senhora, teve azar num desses encontros.

MC
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Sexta-feira, Junho 01, 2007

Cobardia e o destino do mundo

Schopenhauer afirmou que era destino das verdades passarem por três fases, a primeira delas a ridicularização, depois a oposição violenta e, por último, a aceitação como óbvias. Contudo, este percurso não é só apanágio das verdades mas de todo o tipo de ideias. Em especial, as ideias que não são verdadeiras têm a fase da oposição bastante mitigada. Quem diria há 10 anos atrás que iriam existir programas nacionais contra a obesidade, que seriam aprovadas leis que iriam violar a propriedade privada em nome do combate ao tabagismo, que as próprias penalizações por fumar seriam maiores que as aplicadas ao consumo de drogas pesadas, que o combate ao racismo, à discriminação dos homossexuais e das mulheres seria feito através de políticas discriminativas em nome da igualdade e por aí fora?

Uma das causas que já está em marcha, por enquanto de forma convenientemente tímida, é a tentativa de que a pedofilia seja progressivamente aceite. Para isso nada melhor que a sábia utilização da linguagem. O processo já é conhecido, arranjar uma terminologia inócua para descrever o pedófilo e outra ofensiva para quem o critica. A habituação é progressiva, os escritores vão começando romancear a pedofilia, vão aparecendo estudos que “provam” que é uma coisa natural no ser humano, e em poucos anos o Bloco de Esquerda estará a colocar cartazes no meio das cidades, com um pedófilo asqueroso beijando a face de uma criança e um dizer condenando quem discrimina aquela relação de amor.

Argumentar que estas movimentações rumo ao abismo são apenas fruto do engano é ser demasiado ingénuo. As democracias actuais transformaram-se na prática num sistema fechado, dominado por uma elite que não assume o poder que tem. Já não são as massas que, bem ou mal, influenciam a direcção da governação. As elites tomam o lugar dos profetas porque, supostamente, interpretam a vontade do povo. Na realidade, a única coisa que as identifica não é o conhecimento nem a virtude, mas a capacidade de reduzir a vontade do povo às suas pretensões.

Pensemos nas supostas alterações climáticas. Seriam as elites, se fossem autênticas, as primeiras a rejeitar o estabelecimento de um consenso que não admite vozes discordantes. Fazem precisamente o oposto. São os primeiros a utilizar todos os meios para lançar descrédito nas posições cépticas, não por via da argumentação sobre a matéria em causa mas pelo ataque às motivações, ou seja, pela difamação encoberta. Apesar destas elites dominarem a quase totalidade dos meios de comunicação social, serem apoiados por fundações bilionárias e muitas vezes pelos Estados, serem uma coqueluche de Hollywood, tem a cara de pau de encerarem a farsa de serem os fracos, oprimidos e os únicos com coragem para denunciar a “verdade inconveniente”, que de resto é a única que o grande público tem acesso. A farsa tem proporções que desafiam a imaginação humana e aqueles que viram a ponta do iceberg sentem-se tão pequenos que são confrontados com um dilema. Ou começam a denunciar a fraude, e é fácil de prever que serão esmagados, ou aderem ao lado “inconveniente”. Claro que aderir à fraude, por mais confortável que seja, levanta sempre algumas inquietações morais. Estas resolvem-se se os indivíduos convenceram-se que sempre estiveram do lado “certo”.

Voltando ao início, podemos distinguir o que diferencia o percurso de aceitação das verdades em relação ao das fraudes, sejam elas intelectuais ou morais. Não é a fase inicial da ridicularização que é diferente. Qualquer ideia nova que ponha em causa o estabelecido, seja certa ou errada, causa estranheza. Na fase seguinte, as ideias verdadeiras tentam impor-se pelos seus próprios méritos. Esta luta no domínio da razão é árdua porque enfrenta a oposição dos raciocínios viciados, que só pode ser vencida com grande tenacidade. Com as fraudes, o processo intermédio é bastante diferente. Não existe confronto de ideias, já que a fraude nunca é totalmente explícita para não se expor demasiado. A ideia a passar está implícita e o processo visa sobretudo protegê-la do escrutínio da razão. O que acaba por ser óbvio no final é a existência de uma coacção moral tão grande que constrange fortemente quem tiver pretensões de se opor ao embuste.

MC
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Sexta-feira, Maio 25, 2007

A decadência moral dos portugueses

Até que ponto Maquiavel teve razão quando defendeu que ao governante era preferível que fosse temido em vez de amado? Para ter escrito isto podemos supor um contexto em que se verifica uma versão da tragédia dos comuns. A tragédia dos comuns ocorre quando um comportamento similar é causa de um dano geral, mas se uma das unidades decidir mudar a sua prática, não só não conseguirá melhorar a situação como irá colocar-se numa situação muito desfavorável. Sendo os incentivos contrários à mudança, atinge-se um ponto de estabilidade negativo.

A formulação de Maquiavel opõe o temor à adoração. Contudo, ao invés de se excluírem, um é frequentemente causa do outro. O indivíduo que não tem coragem para se indignar, esconde essa cobardia de si mesmo convencendo-se que ama quem o mal trata. Esse mecanismo pode ainda ser potenciado em situações de grande impotência, como o rapto, ou quando ocorre de forma colectiva, como no caso do maoismo, que mesmo no ocidente provocou histeria a muitos.

Num contexto democrático as coisas decorrem de forma um pouco diferente. Não é possível impor um terror permanente sobre os governados e também não é concebível uma adoração unânime ao líder. Por isso o Príncipe aposta na degradação moral dos súbditos. A indignação só é possível quando existe uma forte concepção de justiça, caso contrário resta a ira momentânea, como nos animais, que se dissipa rapidamente. Ao contrário da indignação, a ira não potencia uma reacção de grupo consistente, porque apenas se manifesta naqueles que se sentem afectados. A degradação moral tem também outras consequências, sendo uma delas a quebra de confiança entre as pessoas, o que as torna mais dependentes de quem as governa. Quando se deixa de sentir os outros como irmãos surge a necessidade de ter um pai que a todos imponha a sua mão autoritária.

Esta degradação moral é por demais evidente no Portugal em que vivemos. Os portugueses não só não gostam uns dos outros como perderam qualquer noção de certo ou errado. Os dislates do ministro Mário Lino sobre o deserto a sul do Tejo foram alvo de tentativa de aproveitamento por muitos, na esperança de capitalizar a indignação que daí poderia resultar. Não perceberam que não pode haver indignação quando deixou de existir a consciência ética que a suporta. No caso da licenciatura de Sócrates, para além do imbróglio propriamente dito, o mais grave foram as pressões para silenciar as vozes incómodas utilizando directamente os meios do Estado, com ameaças de “regular” a blogoesfera, telefonemas para as redacções dos jornais e, mais recentemente, a suspensão de um professor por exprimir a sua opinião fora da sala de aula. A indignação foi quase nula porque não existe um mínimo denominador comum de consciência de algum valor ter sido atropelado.

Mesmo aqueles que falam acaloradamente sobre estas matérias, em blogs e outras mesas de café, parecem ter fraca noção do que se está a passar. Os assuntos sucedem-se e cada um é como uma onda que bate na areia da praia e apaga o rasto do passado. São quase inexistentes as vozes que falam de um mal mais geral. O máximo que vi até agora foi a elaboração de um pequeno historia sobre os casos relacionados e um alertar sobre o domínio que este governo exerce sobre a comunicação social. Mas falta um olhar ainda mais distante e uma retirada de conclusões. Enquanto a coragem de fazer isto não existir iremos oscilar entre a ira pontual, infantil, e considerações genéricas desligadas da realidade e totalmente inconsequentes. Já fomos alertados que a sobrevivência da democracia depende da vigilância constante. Esquecemos que essa missão deve ser por nós desempenhada e não por aqueles que devem ser os alvos da vigilância.

MC
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Sexta-feira, Maio 18, 2007

Nem sempre previsível

MINI ENSAIO, SEM APOIO BIBLIOGRÁFICO, SOBRE POLÍTICA E RELIGIÃO

O que torna a discussão política desinteressante em Portugal é a sua previsibilidade. Dir-se-ia mesmo que o debate político e respectiva prática estão vedados àqueles que não se sabe, de antemão, o que irão dizer ou fazer. Apesar da constante lamúria sobre o estado da nação e das inevitáveis medidas sempre adiadas, quando algum governante propõe alguma alteração concreta a contestação supera sempre o desejo de mudança. O povo português é como uma criança que pede um brinquedo de forma insistente e, quando lho dão, diz que não gosta.

O que os pais modernos desconhecem nos seus filhos são os seus verdadeiros anseios, que não passam por um sucessivo realizar de desejos imediatamente materializáveis. O que as crianças realmente querem é que alguém da sua confiança lhes traduza as suas motivações e inquietações, já que eles não têm ainda as ferramentas intelectuais e emocionais para o fazer. No fundo, as crianças necessitam que os pais a introduzam no mundo da filosofia. Igual anseio tem o povo adulto, nada mais espera que uma figura de referência lhes aponte o sentido da vida. Por isso as pessoas acabam por desprezar os políticos que descem “ao seu nível”, já que isso lhes furta a expectativa de transcendência, e acabam por respeitar aqueles que lhes batem o pé, como José Sócrates, Cavaco Silva ou António de Oliveira Salazar.

Claro que a função da política não é apontar para o sentido da vida, é definir soluções para a «coisa pública» e não para a “coisa íntima”. Esta dupla função que os governantes acabam por assumir advém do nascimento do Estado moderno, que concentrou todo o poder na figura do déspota iluminado. A formação do Estado moderno baseou-se numa inversão de prestação de contas entre órgãos de poder. O soberano passou a prestar contas directamente a Deus e só a Ele, deixando de se sujeitar a quaisquer ditames do Vaticano ou de outras ordens religiosas.

Contudo isto não configurou uma separação de poderes. Foi Cristo o primeiro a separar o que era de Deus do que a César pertencia, esperando divulgar a doutrina do primeiro sob a protecção terrena do segundo. Se bem que o papado não tenha sempre se guiado por estes ditames, nunca conseguiu ter verdadeiramente sobre a sua alçada o poder secular. Na formação do Estado moderno, o poder religioso apenas conseguiu sobreviver se fosse um instrumento do poder secular. Esta “real politik” do Vaticano mas também das forças protestantes, acabou por ditar, a prazo, a descredibilização da religião cristã. Ainda hoje a Santa Inquisição é vista como sendo algo gerado e gerido unicamente pelas ordens religiosas, quando foi um poderoso instrumento das forças temporais na subjugação da alma humana para seu próprio proveito, com uma cobertura de religiosidade. O odioso caiu unicamente sobre Deus, mas os proveitos foram inteiramente para César. E assim, César passou a ser Cristo.

Que evidências temos de que esta versão está mais próxima da verdade que a comummente assumida? Desde logo, a protecção deixou de se pedir à divina providência mas ao Estado, que passou a ter o exclusivo. A fé também já não está numa vida maior depois da morte mas na validade do assistencialismo prestado pelo Estado. E quem define hoje em dia os dogmas, as heresias e as formas de expiar os pecados são os políticos e não os padres. Quando os estatistas actuais pugnam veementemente pela separação entre Estado e Igreja, o que realmente querem é o monopólio da simbologia religiosa. Defendem que o Estado deve ser laico, o que é desejável, mas interpretam isso como a necessidade de uma série de medidas anti-clericais. O objectivo é que a vivência religiosa passe a ser como a sexualidade, apenas tolerada se afastada dos olhares de todos ou, no máximo, como uma curiosidade folclórica, inócua, para turista ver.

O fim último é restringir qualquer poder de influência que o cristianismo possa ter. A missão do Estado está praticamente concluída neste aspecto, o cristianismo é visto pela maior parte das pessoas como uma curiosidade não muito diferente da astrologia. A maior parte dos cristãos envergonha-se de assumir a sua condição. Para os ateus fanáticos tratam-se de grandes conquistas mas os agnósticos e ateus conscientes deviam estar atentos aos perigos desta nova configuração. Mesmo que não lhes agrade o sentimento religioso, devem perceber que este não se vai esvair eliminando o cristianismo. Essa necessidade de religiosidade será cooptada pelo radicalismo islâmico, pelas religiões biónicas criadas por bilionários ou ainda por uma versão moderna do déspota iluminada, quem sabe um futuro presidente do Governo Mundial. Apesar do cristianismo ter sofrido várias deturpações ao longo da sua história, é uma religião que se baseia no amor ao próximo e na separação de poderes. Já as suas alternativas que esperam ardentemente pela derrocada final da Cruz são na sua essência movimentos totalitaristas. O ódio aos padres acabará por criar novos sacerdotes da morte.

MC
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Sexta-feira, Maio 11, 2007

Unidos perderemos

O que têm em comum a discussão sobre o aborto, a crise na câmara de Lisboa e a aprovação da nova lei sobre o fumo? Na minha opinião, o que há em comum é uma subserviência implícita dos grandes partidos ao politicamente correcto. Acontece que o politicamente correcto é como o Diabo, a sua maior artimanha é fazer-se passar por inexistente. Já se viu alguém a defender o politicamente correcto de forma explícita?

O politicamente correcto aparece como um imperativo social e quem a ele se opõe passará por retrógrado, ignorante e sem consciência social. Dessa forma, defender o aborto livre, a eutanásia, a liberalização de drogas duras, a proibição crescente do fumo, discriminar positivamente mulheres, gays e minorias étnicas, desvalorizar a religião e as instituições tradicionais, tornam-se acções só por si merecedoras de valor. O debate em seu torno é cada vez mais difícil e quanto mais mediático for o meio de comunicação, mais estreita é a gama de opiniões que podemos assistir.

Mesmo aqueles que se opõem a tanto «progressismo» adoptam uma postura em que, a cada intervenção, antes de expressarem os seus pontos de vista, concedem algum tempo para elogiar o ponto de vista contrário. Tentam assim apagar a má imagem que acham que as suas posições «conservadoras» lhes associa inevitavelmente. Este jogar à defesa provoca uma reacção do lado oposto que é, naturalmente, o jogar ao ataque. Não é difícil aos «progressistas» ridicularizar os «conservadores» que já se encontram de cócoras.
O povo não perceberá os pontos mais elaborados da discussão, nem conseguirá detectar as falácias, quando não mentiras deliberadas do processo, mas perceberá este jogo de forças. Percebe logo que há uma parte que está derrotada à partida e por isso aceita, com naturalidade, que o conjunto de medidas «progressistas» é mesmo inevitável. Portugal, que alguns dizem reger-se por uma democracia liberal que serve um povo ainda bastante conservador, é na verdade um rectângulo em revolução permanente, que destrói a cada dia que passa as suas realizações sociais em nome de uma proposta de futuro nunca escrutinada. O problema lusitano é o medo de ficar mal na fotografia. É realmente cobardia de discordar de viva voz. Pior ainda, é nem ter a decência de duvidar.

MC
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Domingo, Maio 06, 2007

Viagem ao Japão

Alguns resultados da minha ida ao Japão podem ser vistos aqui.

MC
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Sexta-feira, Maio 04, 2007

Distorções morais

Chantal Delsol fala no seu livro “Icarus Fallen” que actualmente a moralidade baseia-se unicamente na emoção, estando totalmente separada do seu fundamente essencial, que é a verdade, em geral alguma verdade religiosa. A partir daqui acrescento que a relação é complexa uma vez que as próprias reacções emocionais derivam, em parte, das concepções morais. Mas, uma vez perdida essa ligação à «verdade», tudo passa a ser possível. Mais pernicioso que a total perda do sentido da moralidade é a sua deturpação completa. Os indivíduos amorais estão ainda constrangidos pelos instintos que não só têm em vista a auto-preservação egoísta mas também fornecem algumas ferramentas para harmonização social. Não constitui isto uma defesa do «bom selvagem» mas apenas notar que um «selvagem» no meio da civilização é bem menos nefasto que um indivíduo com a moral deturpada.

Isto acontece porque a moral deturpada consegue derrubar todas as barreiras, cometer todos os crimes e, ainda assim, ter um sentimento de superioridade sobre tudo e todos. O que se torna dramático em termos sociais é a influência que apenas alguns elementos «transtornados» conseguem induzir na “consciência global”. Não é por moral a cristã ter vindo a perder peso que deixa de haver necessidade do sentido da moralidade. É caricato que aqueles que criticavam a aceitação da moral cristã sem qualquer sentido crítico, venham agora propor morais alternativas, irritando-se de sobremaneira quando alguém tenta avaliar as suas propostas. Justificam a sua intolerância com as intolerâncias passadas, mesmo que estas tenham ocorrido há centenas de anos. A Inquisição servirá de desculpa eterna, inclusivamente para as inquisições que agora tentam fazer e em grande parte já fazem, aproveitando o vazio moral que eles mesmos ajudaram a criar.

Uma notícia do Portugal diário indicava que Paulo Portas recuperava uma máxima nazi (“O trabalho liberta”), que deixou escapar durante comemorações do 1º de Maio. Não que Paulo Portas possa queixar-se de mau tratamento pela comunicação social, pelo contrário, foi uma excepção. Alguns dias antes José Mário Branco usava os telejornais para explanar as suas visões do mundo. Criticava o capitalismo e disse que isto já não ia lá com palavras mas só partindo tudo e construindo depois uma nova sociedade. A forma como estes exemplos são recebidos mostra bem que as palavras de Chantal Delsol descrevem com precisão a sociedade portuguesa. Interessa apenas o efeito emocional do que se diz e não a verdade ou a mentira implícitas. A direita é nazi? Não interessa, mas apenas que dizer isto provoca uma forte emoção de regozijo. Por outro lado, quando elementos da esquerda totalitária (passando o pleonasmo) defendem acções que qualquer neo-nazi aplaudiria de pé, são admirados porque utilizam um discurso com uma simbologia que evoca admiração e respeito.

MC

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Sexta-feira, Abril 27, 2007

Promessa quebrada, nova promessa

Prometi, em tempos, elaborar uma série de posts sobre o totalitarismo baseado nas contribuições de Orwell, Hayek e Mises. Contudo, dando-me conta que o totalitarismo não é apenas a pior catástrofe que pode ocorrer numa civilização mas também um perigo real que podemos defrontar mais cedo do que julgamos, decidi aprofundar o tema e escrever um livro sobre o assunto.

Orwell descreve no livro “1984” uma sociedade totalitária «perfeita», no sentido em que todos os aspectos da vida dos indivíduos são controlados centralmente e o próprio sistema criou mecanismos para a sua manutenção perpétua. Contudo, a meu ver, Orwell não dá explicações convincentes sobre como se chegou àquele totalitarismo. Por outro lado, Orwell também não dá qualquer esperança para romper com o totalitarismo, o que dá uma força especial à narrativa mas à custa de alguns erros de análise. Nestes dois pontos Hayek e Mises dão contributos que me parecem mais relevantes.

Seria de esperar que numa obra como esta a primeira coisa a avaliar seriam as origens do totalitarismo e, depois, descrever os vários totalitarismos, ou seus esboços, que existiram (nazismo, fascismo, estalinismo, maoismo, etc.). Uma abordagem como esta, para além de não trazer nada de novo, penso ter o problema das lições que a História insiste em não nos ensinar. Cada acontecimento histórico deveu-se a uma conjugação de factores que o torna verdadeiramente irrepetível. Queremos, naturalmente, evitar situações semelhantes mas quais foram os factores decisivos que levaram à ocorrência daquelas situações? O «historicismo» pode-nos fazer enredar em pormenores insignificantes e desviar a atenção daquilo que realmente conta. Não quer isto dizer que a História ficará esquecida. Pelo contrário, será altamente lembrada mas depois (ou ao mesmo tempo, ainda não foi decidido) de apresentado um esqueleto teórico sobre o totalitarismo que contenha em si aquilo que é mesmo essencial para compreender o fenómeno.

Falando sobre totalitarismo, é legítimo perguntar se é lógico considerar que as contribuições de Hayek e Mises são de maior relevância que as fornecidas por outros autores que se dedicaram explicitamente ao assunto, como Karl Popper, Hannah Arendt ou Zbigniew Brzezinski. Não há qualquer intenção de ignorar o que disseram estes e outros autores, que serão devidamente estudados. Mas, mais uma vez, penso que o esqueleto teórico criado por Hayek e Mises, não só complementa e corrige o que escreveu Orwell, como cria o suporte ideal para albergar as contribuições dos maiores estudiosos do totalitarismo.

Quer-se, numa obra minimamente séria sobre esta temática, um background não só nos pontos referidos acima (por exemplo, não basta ler o “1984” de Orwell mas toda a sua obra e que se disse sobre ela; com Hayek e Mises já é bem mais difícil fazer isso) mas também um razoável insight em filosofia política e economia. O objectivo é também olhar para o futuro e denunciar os 5 projectos totalitaristas em curso:


1º - ONU, tentando promover um governo mundial, mas a que podemos acoplar toda uma série de projectos progressistas, desde a ecologia radical até ao multiculturalismo;

2º - União Europeia e a sua “integração política”;

3º - Integrismo islâmico;

4º - Foro de São Paulo, que tenta recuperar na América Latina aquilo que perdeu na Europa de Leste;

5º - China, uma grande incógnita onde o capitalismo pode ser o melhor fermento para o socialismo ou o seu carrasco.


Se conhecer o anti-semitismo é importante para compreender os projectos totalitaristas do passado, hoje em dia é imprescindível a abordagem do antiamericanismo. E mais importante que o anti-capitalismo será perceber o anti-clericalismo, em especial o anti-cristianismo.

Para aqueles que me disserem que é uma tarefa demasiado ambiciosa, digam-me onde estão reunidos todos estes assuntos de forma coerente num só volume que passo já a para uma das muitas tarefas que reclamam um pouco do precioso tempo.

Darei notícias sobre este assunto daqui a 2 ou 3 anos.

MC

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Sexta-feira, Abril 20, 2007

Voltando ao pequeno rectângulo

Após duas semanas por paragens longínquos volto ao país para constatar o seguinte:

SLB

O Sport Lisboa e Benfica não se conseguiu aguentar sem o meu apoio. Os sonhos do título e da Taça Uefa esfumaram-se. Para o ano voltaremos a acreditar.

VIRGINIA TECH

As boas consciências lusas debitam pérolas de sapiência sobre o massacre de Virginia Tech. Mas ainda precisamos de mais provas de que a América está louca e a venda livre de armas conduz inevitavelmente a estes resultados rotineiros? Não interessa se existem outros eventos do género em várias partes do mundo, que em muitas outras paragens a disseminação de armas é semelhantes e que o Estado de Washington, que proíbe a venda livre de armas, tem mais criminalidade que o Estado da Virgínia. As consciências tranquilas, que apontam facilmente o dedo acusador, acabam por revelar uma mentalidade sórdida que desculpa em permanência os criminosos e pugna pelo desarmamento das vítimas. Não lhes basta que tenham sido assassinadas, ainda conseguem culpá-las por isso.

EXTREMA-DIREITA

A extrema-direita volta a dar que falar. Os seus elementos são tão estúpidos que nem percebem que a principal função que desempenham, involuntariamente, é dar pretextos à extrema-esquerda. Tenho lido em blogs perguntas do género: «Com quem preferias encontrar-te num beco escuro, com a extrema-direita ou com a extrema-esquerda?» A pergunta é interessante mas devia também ser feita outra: «Preferia ser governado pela extrema-direita ou pela extrema-esquerda?» Ora, o beco escuro partilha-se de forma agradável com a extrema-esquerda, possivelmente com ajuda de substâncias psicotrópicas e, com alguma sorte, alguma jovem de formas voluptuosas decide mostrar-se como veio ao mundo, como forma de protesto contra o fascismo. Já encontrar a extrema-direita no beco pode ser realmente muito perigoso.

Em relação à governação, a questão inverte-se um pouco. Apesar de ambas as extremas partilharem alguns propósitos (anti-capitalismo, limitação da liberdade individual), as ditaduras que geram têm actuações significativamente diferentes. As ditaduras de direita são ditas reaccionárias porque destinam-se a repor uma situação anterior. Utilizam a repressão, mais ou menos violenta, para impor a ordem e uma certa organização geral da sociedade. Este tipo de ditadura contenta-se com a manutenção de privilégios para uma elite dirigente e exige que o povo que não transgrida certos limites, não se importando por aí além com aquilo que as pessoas fazem num domínio privado. Já as ditaduras de esquerda são progressistas porque querem criar uma nova sociedade e usam a coerção para tal fim. Têm projectos globais para a sociedade e para cada aspecto da existência. São, por excelência, projectos totalitários.
Se não existisse uma terceira opção, escolheria, sem qualquer dúvida, viver numa ditadura reaccionária. Por pior que fosse, saberia o que me esperava e as fronteiras do risco. Teria ainda maior esperança numa alteração positiva porque, à medida que a reposição da ordem fosse sendo consumada, a ditadura iria ter tendência para se ir aligeirando e, logo, mais facilmente seria derrubada. Já uma ditadura revolucionária vive uma mudança perpétua. Aqueles que são bons hoje, amanhã podem levar um tiro na nuca. Os projectos utópicos, com vista a uma sociedade perfeita num futuro indeterminado, destroem não só todas as estruturas existentes como a própria alma humana. Por essa razão os países que viveram ditaduras de direita, quando passaram para a democracia conseguiram endireitar-se e prosperar rapidamente, enquanto aqueles que viveram projectos socialistas têm muitas dificuldades em se encontrar a si mesmos.


SÓCRATES

É impressionante a quantidade de pessoas que defendem o nosso Primeiro-Ministro e nem sequer lhes pagam para isso. Por exemplo, já perdi a conta ao número de comentadores em blogs que acham mesquinho estar a atacar Sócrates por causa das suas qualificações e que ele não passa a ser pior governante se afinal não for engenheiro. Acontece que ninguém acusou Sócrates por essas razões. O processo é longo é tem muitos aspectos, alguns que me parecem ser de menor relevância, como o de saber se é engenheiro ou só licenciado em engenharia ou em que datas se deu a conclusão do curso. Realmente grave foram as pressões exercidas sobre os jornalistas para que o assunto ficasse abafado, utilizando os nossos recursos via parasitas estatais. Grave é o estranho relacionamento entre Sócrates e um professor Morais, onde parece evidente a troca de favores, envolvendo provas de inglês medíocres e cargos partidários.

Sócrates mostra que, afinal, não é diferente de um Valentim Loureiro. Convive bem com a mentira e o embuste, considera-se acima dos outros cidadãos. Tal como Valentim Loureiro, Sócrates e os seus assessores, acham que o povo é estúpido, cobarde e não ficará indignado com evidentes manobras de bastidores. Os responsáveis pela UNI, em processo de encerramento que depende directamente do governo, que ameaçaram com declarações bombásticas sobre o percurso académico de Sócrates, no dia seguinte vêm com um discurso que apresenta o Primeiro-Ministro como o aluno mais exemplar que passou por aquele estabelecimento de ensino. Este tipo de acontecimento decorre nas televisões em horário nobre mas nem por isso os envolvidos preocupam-se em ter um discurso minimamente credível.

Há quem seja da opinião que um país como o nosso, que acredita em Fátima, está preparado para acreditar em qualquer embuste. Cada vez convenço-me do contrário. Num país onde as pessoas se envergonham de acreditar no sobrenatural, as crenças são transferidas para figuras de carne e osso que se prestam a uma corrupção até ao tutano.
MC
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Sábado, Março 31, 2007

Aviso

Para os eventuais leitores deste blog que estejam atentos à sua periodicidade semanal, informo da elevada probabilidade de não existirem actualizações nas próximas duas semanas por motivos de visita ao país do sol nascente.
MC

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Salazar, a admiração e o protesto

Passada quase uma semana após a clara vitoria de António de Oliveira Salazar num concurso que o elegeu com o maior português de sempre, perdi as ilusões de que se pudesse daqui tirar algo de positivo. Podia aquele resultado expressivo ser um “basta!” em relação a um sem número de coisas a que assistimos. Muitas pessoas têm a convicção que com Salazar no poder, se isso fosse possível actualmente, o aeroporto da OTA não iria avançar a não ser que fosse algo muito bem pensado e não um projecto em cima do joelho com largas suspeitas de negociata. Também não haveria figuras aberrantes como Valentim Loureiro e Fátima Felgueiras a dar entrevistas na televisão como se fossem heróis. Nem haveria problemas com o défice, nem reformas e indemnizações milionárias para gestores públicos apenas por uns meses de serviço, nem tribunais que demoram mais de uma década a avaliar processos elementares e a deixar que outros importantes prescrevam, nem que as escolas fossem locais onde nada se aprende a não ser a lógica da violência e, por incrível que pareça, com Salazar não haveriam tanta ingerência na vida privada das pessoas e seríamos mais livres.

No actual contexto, teria algo de positivo pensar desta forma, não por ser muito realista esta fé em Salazar mas porque, pelo menos, haveria uma consciência dos problemas existentes e, mais importante, uma vontade determinada em acabar com eles. Contudo, mais uma vez se provou que não existe opinião pública em Portugal, não há nenhum esboçar de movimento que cheire a “basta!”, o que abre caminho a todo o tipo de interpretações do sucedido. Uma que não tem pernas para andar é a que justifica os resultados como uma acção concertada de movimentos de extrema-direita. Por mais que se esforçassem, isolados teriam sido cilindrados pelos comunistas, com uma capacidade de influência várias ordens de grandeza acima. Certamente que Salazar venceu porque o admiraram ou utilizaram como símbolo de protesto.

Aparentemente muitos votaram por protesto mas nem conseguem compreender isso muito bem e esperam que alguém lhes interprete as vontades. E, sendo assim, põem-se na mão dos opinadores profissionais. Protesto contra o governo porque fechou maternidades e subiu a idade de reforma. Ou protesto contra a direita e não consegue apresentar uma alternativa. Ou então o protesto é contra esta democracia que se criou com tantas expectativas mas a única coisa que ouvimos todos os dias é a nossa posição na cauda da Europa. Ou protesto contra a emigração crescente, a globalização, o terrorismo, o aquecimento global… Se quem protesta nem sabe muito bem ao que vai, abre caminho a todo o tipo de demagogos.

Contudo, o que pode ter desequilibrado o resultado é a admiração por Salazar. Há quem admire Salazar por ter endireitado as contas públicas, por ter evitado a Segunda Guerra Mundial, por ter criado um país ordeiro e de brandos costumes. Mesmo tendo em conta que a memória tende a esquecer o que havia de mau e a romantizar um passado já distante, penso que a admiração maior que Salazar possa despertar resume-se a uma palavra: Império.

Paulo Portas comentou os resultados referindo a pobreza do século XX, que a votação enalteceu com maioria absoluta, ao passo que esqueceu as glórias passadas. Há quase uma unanimidade em considerar o período imperial como o mais glorioso de Portugal. Se forem coerentes terão de admirar forçosamente o último símbolo do império, aquele que manteve esta ilusão várias décadas para além do expectável: Salazar.

Existe uma esquizofrenia temporal que tende a considerar a noção de império gloriosa num passado distante mas totalmente aberrante no presente e passado recente, o que impede de avaliar a questão objectivamente. Para aqueles, como é o meu caso, nunca viveram num período imperial terão dificuldade em conceber como pode ter sido. Portugal já não está orgulhosamente só mas é um país totalmente irrelevante. O império há muito estava condenado mas é precisamente o sentimento de perda que desperta uma certa nostalgia.
MC

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Sexta-feira, Março 23, 2007

O papel da comunicação social

Em muitas democracias já se admitiu que é irrealista esperar imparcialidade da comunicação social, por isso jornais e canais de TV fazem as suas declarações de apoio ou repúdio atempadamente. Os jornalistas portugueses descobriram algo muito mais interessante: A forma mais eficaz de fazer propaganda consiste em alardear os valores do rigor, da isenção e da imparcialidade com tanto o mais vigor que aquele que utilizam na sua corrupção. Mentir, encobrir, falsificar a realidade, ao mesmo tempo que nos garantem que é extremamente difícil o trabalho jornalístico da procura dos factos e da análise objectiva. Tão difícil que nem o tentam fazer.

O que é a imparcialidade para um jornalista? É atacar os inimigos políticos empolando ao máximo qualquer rumor, acção que justificam pelo direito dos portugueses à informação. Mas é também ocultar qualquer evidência contra os seus protegidos políticos, alegando o dever de seriedade e, logo, o não alimentar boatos sem a devida justificação. Desta forma a comunicação social fez um enorme alarido sobre qualquer banalidade do governo de Santana Lopes, ao passo que insiste em omitir a prodigiosa sequência de trapalhadas do executivo de José Sócrates. E temos o destaque de capa de jornal e notícia de abertura do telejornal quando o assunto é o aquecimento global de origem humana e o silêncio absoluto sobre os estudos e documentários que tem uma postura céptica sobre o assunto. E sempre que se fala dos EUA, de Israel ou da Igreja Católica, a lógica é apresentá-los da forma mais negativa possível.

Se a comunicação social fizesse este trabalho sempre da mesma forma em relação a todos os assuntos, pela omissão ou pela maledicência acrítica, podia ser acusada de incompetência ou de estupidez elementar. Contudo, o plano que seguem não é aleatório, tem objectivos bem definidos e consequências previsíveis. Aquilo que chamamos de opinião pública mais não é que o resultado da adulteração dos factos pelos media.
MC

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Sexta-feira, Março 16, 2007

A esquerda moderada

Dizem que há por aí uma esquerda moderada. Aliás, que moderada será toda a esquerda tirando algumas excepções. É tal como o Islão, são todos moderados até prova em contrário. Uma moderação levada ao extremo no que toca a criticar os seus radicais. A esquerda, bem melhor que o Islão, explica o aparente paradoxo: A esquerda é plural.

E a esquerda é plural porque admite vários tipos de antiamericanismo, vários graus de desconfiança sobre a economia de mercado, diversos níveis de apoio ao terrorismo e vários andamentos rumo ao totalitarismo. A esquerda é apenas una no que concerne a negar todos os objectivos anteriores, excepto os marxistas que ainda guardam em si alguma honestidade.

A esquerda que não se assume como marxista, a esquerda moderna, tem como objectivo tornar-nos óbvia a sua sabedoria. São apenas os espíritos pouco desenvolvidos, como este de quem aqui vos escreve, que não percebem as verdadeiras motivações da esquerda moderna. Esta esquerda não é antiamericana, é apenas contra os excessos americanos, contra o imperialismo e o unilateralismo. Também não é contra o mercado e a globalização, limita-se a ver as suas insuficiências e a sugerir formas de as corrigir. E claro que a esquerda não apoia o terrorismo, apenas tenta perceber as suas causas e a ter a humildade de reconhecer as culpas do ocidente. E alguma vez a esquerda poderia ser totalitária? Mais que ninguém, a esquerda é pela liberdade, que se concretiza num fruir de direitos alienáveis.

O que acima se expõe de forma irónica são jogos de palavras que raramente são confrontadas com um exigir de explicações. As supostas boas intenções tornam irrelevante o averiguar das consequências destas ideias. Mas a esquerda que se diz moderada tem a obrigação de repudiar da forma mais veemente os projectos de holocausto colectivo da esquerda radical. Como não o tem feito, o resultado é estarmos a viver num regime dominado por ideias extremistas e suicidas. Quando as ideias radicais são o padrão, as ideias moderadas passam a ser o extremo. Não temos uma esquerda moderada mas uma que o quer parecer e para isso obriga-se a extremar-se. A única esquerda moderada que existe é aquilo que se chama direita.

O ser humano é provido de intelecto e tem à sua disposição uma data de ferramentas de despiste de erros desenvolvidas ao longo de gerações. Consegue pegar em certas ideias e delas extrair consequências lógicas, inevitáveis se os pressupostos forem válidos, e também traçar vários cenários consoante as incertezas. Em relação às ideias de esquerda, este trabalho apenas ter sido feito por uma minoria residual e sem grande visibilidade. Ou seja, as linhas orientadoras para o nosso futuro não sofrem qualquer escrutínio da razão, apesar de ser algo relativamente fácil de fazer.

O sucesso da esquerda moderna passa por um processo subtil de exclusão de partes, em que ganha quem fica por último, mesmo sem ter dado provas da mínima validade. Acontece que este processo de exclusão de partes só funciona se: 1) o problema em questão tem solução; 2) O universo das soluções hipotéticas considerado contém em si a solução correcta 3) As hipóteses de solução são disjuntas entre si; 4) For possível provar de forma inequívoca que as soluções incorrectas são de facto erradas. E isto sem contar com a intervenção humana, que na prática apenas ainda distorce mais este processo através da mentira, da calúnia e da falsificação. Desta forma, quando todas as propostas alternativas forem sentidas como ímpias, a solução da esquerda moderna brilhará. A vitória da esquerda resulta de um processo de supressão do pensamento. E assim cumprem-se os desígnios de Marx.


MC

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Sexta-feira, Março 09, 2007

Alienação voluntária

Ao homem comum, e todos os homens são comuns do ponto de vista apropriado, não se pode esperar um conhecimento aprofundado dos vários problemas que afectam o mundo. As suas fontes são a televisão, um pouco a rádio e os jornais, mas sobretudo as conversas do café. Não lhe passa pela cabeça que o conhecimento nunca se faz sem um grande esforço, onde é necessário avaliar argumentos contraditórios, que de início parecem ter validades semelhantes e para distinguir entre o trigo e o joio é necessário avaliar cada uma das ideias em pormenor e os fundamentos em que se baseia, os quais, por sua vez, carecem com frequência de um procedimento semelhante, sendo uma tarefa com um número de passos indeterminado à partida e, por isso, sem a garantia de obter uma resposta conclusiva.

O homem instruído teria obrigação de conhecer este procedimento e aplicá-lo nas discussões sérias, pelo menos nos limites da exequibilidade possível face ao contexto. O que podemos ver na blogoesfera, nos comentadores e nos próprios bloggers, a maior parte deles com formação universitária e muitos mesmo professores do ensino superior, é uma aversão visceral a este processo de busca da verdade. Como se não bastasse, quando maior é a aversão, maior é o empenho em se mostrar dono da verdade. Ao menos, se não se preocupam em chegar mais perto da verdade, estas pessoas instruídas sabem também que existe uma tarefa infinitamente mais fácil: Desmascarar a mentira e o erro.

Mostrar a existência de um erro é relativamente fácil porque não obriga a criar uma teoria alternativa, basta apontar incoerências, lacunas, testar cenários com as teses propostas e obter conclusões impossíveis, etc. Mas, para aqueles que não têm paciência, arte ou engenho para esta tarefa, poderiam ao menos reconhecer o mérito de quem o faça. Mas até isto é raro. O que é frequente é a tentativa de lançar descrédito e o insulto sobre quem faz esse trabalho. É neste contexto que se lançam apelos a consensos científicos e políticos, não por se contar com a ignorância do homem comum, mas sim a contar com militância alienada, anti-verdade, do homem erudito.
MC

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Sexta-feira, Março 02, 2007

Somos todos “socretinos”

Lê-se com frequência nos blogs que os partidos à direita do PS não têm feito oposição ao governo digna desse nome. Muitos também advertiram que o referendo ao aborto é uma jogado política de Sócrates para dar um ar de esquerda, ao mesmo tempo que criou um facto político que tornou irrelevante qualquer outra discussão sobre a governação do país. Acontece que o referendo já passou e os blogs que supostamente se encontram à direita do governo continuam com uma postura passiva.

Estará assim tudo tão bem? Não há factos políticos a comentar? Assim, de repente, lembro-me de alguns. Começando logo pelo aborto, o PS fez as alterações à lei com a ajuda da extrema-esquerda. Não há comentário a fazer à suposta modernidade nem aos idiotas úteis não esquerdistas que estiveram do lado do “sim”? Há poucos dias tivemos o debate mensal no parlamento onde consta que Sócrates fugiu com o rabo à seringa. Não despertou interesse no grosso da blogoesfera. Temos também o anúncio da proibição de fumar em certos locais privados de acesso público. Indiferença generalizada, a defesa da liberdade já deve começar a cansar. A questão dos voos da CIA também não está completamente esclarecida. Silêncio sobre o assunto. As urgências hospitalares também não interessam aos bloggers deste país, que começo a perceber que não gostam de misturas com o país real. Temos ainda uma taxa de desemprego das mais elevadas nas últimas décadas. Enfim, um blogger no desemprego sempre tem mais disponibilidade para “postar”.

A blogoesfera não tem que seguir a agenda mediática do governo. Nunca o fez e daí a sua riqueza. Contudo, nos últimos tempos os nossos melhores bloggers têm agido quase como se não tivéssemos governo e vivêssemos numa gestão corrente descentralizada, sem turbulências. Há vários blogs que se dedicam explicitamente à análise das actualidades, especialmente no campo político (não é propriamente o caso deste modesto blog). No entanto, quem faça uma consulta genérica percebe que as únicas actualidades que andam a ser seguidas são as que se passam “lá fora”. Encontrará também interessantes discussões académicas com uma escassa ligação com a realidade presente ou, dito de outra forma, discussões em que os seus intervenientes não mostram grande emprenho em relacioná-las com a realidade que vivemos.
MC

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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

O pretexto Salazar

Surpresa ou não, Salazar foi considerada por muitos portugueses como o maior de todos. Jaime Nogueira Pinto fez um documentário em defesa da personagem, que ainda não vi, e a consciência moral do país, ou seja, a extrema-esquerda, pediu censura. Para quem não sabe, a censura é como o terrorismo, desde que exercida pelos justos faz todo o sentido. E quem são os justos? São aqueles que defendem causas justas. E o que é uma causa justa? Para quem acredita numa causa ela nunca deixa de ser justa. Raciocínio circular? Pode ser, mas é extremamente útil. Para os intelectualmente limitados, o facto de conseguirem sempre argumentar dá-lhes uma enorme autoconfiança.

O raciocínio circular pode prolongar-se indefinidamente porque nunca sai do mesmo sítio. Mas há uma forma de abreviá-lo. Uma causa é justa porque se opõe a uma situação injusta. Por isso, encontrar uma causa justa, e na sua posse tudo se torna justificável, é apenas o trabalho de fazer crer que existe a luta contra uma ou várias injustiças. O ponto a realçar, pela sua genialidade e perspicácia do conhecimento da alma humana, é que uma injustiça é tudo aquilo que é sentido como tal. A sensação de injustiça pode ser provocada por uma demonstração tipo “A +B” mas é incomparavelmente mais eficaz quando é induzida. Uma injustiça pode ser até em relação a algo que nem existe, como um receio sobre o futuro ou pela recordação de um passado fantasiado.
O que custa à extrema-esquerda não é o branqueamento do salazarismo mas o simples facto de se começar a avaliar aquele período de forma descomplexada. Haver entusiastas do salazarismo até tem a sua utilidade para a esquerda, da mesma forma que a existência de comunistas era uma grande valia para o Estado Novo. Haver entusiastas do outro lado da barricada reforça a ideia da necessidade da luta contra a injustiça, por existirem inimigos reais e não apenas ideias abstractas. O pior que pode haver para uma causa é a suposta injustiça contra a qual se luta começar a ser vista de forma fria e ponderada. Dizer que o salazarismo tinha coisas boas e más, apresentar números, comparar situações concretas. Num contexto de confronto, o nível dos vencedores avalia-se pelo nível dos vencidos. A luta do bem contra o mal só tem interesse quando o mal é poderoso. Banalizar o salazarismo é banalizar a própria causa da esquerda e nada pode ser mais útil para nos libertar da chantagem sobre a qual vivemos.
MC

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Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Pensamento economicista

O SEMÁFORO

O semáforo em questão é complicado. Permanece fechado uma “eternidade” e quando abre é apenas por uns escassos segundos. Já há bastante tempo na fila, que era bem maior atrás de mim do que a que estava adiante, aparece um carro num acesso secundário à direita. A sua intenção era também meter-se quando o sinal abrisse. Não lhe permiti a veleidade. Porquê? Mau feitio, pressa, desatenção, marcar o território? Nada disso, apenas uma questão de justiça.

Vejamos o que aconteceu. Quando o semáforo abriu, o automóvel atrás de mim foi o último a conseguir passar. Se tivesse deixado entrar o oportunista da direita, o que estava atrás de mim não teria conseguido prosseguir, apesar de já esta há bastante mais tempo à espera. Mais que isso, eu mesmo poderia não ter conseguido passar o semáforo porque a gentileza de deixar passar teria feito perder um tempo precioso.

Mas o não deixar passar não é uma regra geral. Baseia-se também na noção intuitiva de que quem tenta “meter-se na fila”, nestas situações, o consegue fazer com facilidade. Existem situações particulares em que se percebe que “tentar entrar” é extremamente difícil e aí a decisão podia ser outra. Outras situações mais complexas podem apoiar a decisão de “deixar entrar”, por exemplo, quando desbloqueiam alguma situação de tráfego.


CASAS DE BANHO

Pouca gente dá-se ao trabalho de analisar com seriedade a problemática das casas de banho públicas versus privadas. Quantos de nós, mesmo numa situação de aflição, não terão uma certa relutância em utilizar os sanitários públicos? As condições de higiene levantam dúvidas justificadas, nos piores casos prenunciadas à distância por via olfactiva. No seu interior encontramos com frequência números de telemóvel de almas caridosas que prestam os seus serviços a camionistas. E também é um bom local, a partir de certas horas da noite, para encontrar o tarado da zona em intensa actividade manual.

Quem não tiver uma ideia radicalmente diferente das casas de banho privadas, na sua maioria as que temos em casa, deve questionar seriamente a qualidade das suas relações sociais e o seu próprio estilo de vida. Em geral, a casa de banho de cada um é um local suficientemente agradável para manter a leitura em dia. O incentivo para cuidar das próprias coisas é incomparavelmente maior que o que sentimos para tratar de tudo o que se encontra na esfera pública. A limpeza da casa de banho em cada domicílio é da responsabilidade de cada agregado familiar. Cada acção descuidada tem consequências quase imediatas, o que não ocorre no sanitário público, para além de um peso na consciência, que só pode ter lugar para quem a possui.

Não confundir as casas de banho públicas com as casas de banho privadas de acesso público, como as dos centros comerciais. Nestas existe o interesse do administrador das instalações em as manter tão limpas e agradáveis quanto possível. Quando esse interesse não existe ele irá perder clientes. Nos mais diversos sectores existe a argumentação que tenta mostrar que a privatização leva à perda de qualidade dos serviços e que estes serão um privilégio dos mais favorecidos. Comparemos as casas de banho públicas e, para simplificar, as privadas de acesso público. Em geral, quais as mais fáceis de encontrar e quais apresentam melhor qualidade?
MC

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Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Notas finais sobre o referendo ao aborto (II)

O que vai acontecer depois do referendo é uma incógnita, qualquer que seja o resultado. É possível conceber uma vitória do “não” com uma despenalização da Assembleia da República. Pode também ocorrer uma vitória no “não” e a lei ficar como está mas, aos poucos, começar a ser interpretada de maneira mais lata, como se faz em Espanha. Justificar o aborto por razões psicológicas foi uma porta aberta já há vários anos, até agora não aproveitada, mas não se vê grandes razões para que não o seja. Não estou a dizer que o deva ou não ser, apenas que é uma possibilidade que mesmo muitos defensores do “não” já identificaram.

Por outro lado, uma vitória do “sim” também tem as suas incógnitas. O facto do PS não assumir claramente o que vai fazer com esse resultado (curiosamente Sócrates disse o que faria com o “não”) indicia que a intenção do governo é liberalizar e subsidiar o aborto. Contudo, penso que isto não é claro. Mesmo que muita gente no PS tenha esta intenção, e mais à esquerda nem se consegue conceber outra possibilidade, a incógnita está no Primeiro-ministro. Ninguém sabe muito bem o que pensa Sócrates mas o que sabemos é que, aquilo que é a sua vontade será aquilo que será feito. Acho que é muito provável que Sócrates queria apenas a despenalização do aborto e não mais que isso, mas até agora não o confessa para não criar confusão à esquerda.

O que há de comum em todos os cenários é que conduzem a uma facilitação do aborto. No limite, o cenário mais favorável para o “não” será ficar tudo como está, mas mesmo isso não é muito plausível se pensarmos que Badajoz está a duas horas de Lisboa. Não se viu nos últimos anos ninguém pedir uma maior protecção para o feto. Há quem defenda a diminuição do número de abortos por via racional, via planeamento familiar, conhecimento dos métodos contraceptivos, etc. O conhecimento é indispensável mas só por si vale pouco. Mulheres cultas e informadas evitarão o aborto de vão de escada mas só o evitarão em outras condições se valorizarem a vida desde a sua concepção. É muito mais cómodo tomar um medicamento abortivo de seis em seis meses do que ter cuidados diários com métodos contraceptivos.

Por isto tudo, penso que são é possível combater o aborto directamente, excepto numa sociedade totalitária. Numa sociedade livre só é possível fazê-lo através da interiorização de valores. Mas a vida em sociedade em relativa liberdade é algo recente, de uma enorme fragilidade e o próprio valor da liberdade é desprezado com frequência. Em grande parte, as sociedades livres são laboratórios onde as forças totalitárias vão impondo aos poucos e de forma aparentemente natural as suas ideias colectivistas e niilistas. São estas pessoas que são normalmente identificadas como os portadores dos valores da modernidade. É um cozer a lume brando, de início até parece agradável.
MC

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Notas finais sobre o referendo ao aborto (I)

A próxima segunda-feira será um alívio, acabou a poeira do referendo ao aborto. Como toda a poeira, entra nos nossos olhos e turva a capacidade de observação. Mais que isso, os olhos irritados, doridos, perturbam também o espírito, toldando a sua capacidade de análise. Posto isto, dou por mim a achar pertinentes as palavras de Jerónimo de Sousa, que acusa certa direita, Paulo Portas e outros, de não ter feito nada para combater o aborto. Penso, por exemplo, que se a adopção fosse um processo rápido e eficaz, muitos abortos seriam evitados. A direita no poder nada fez para facilitar o processo, nem me lembro de tomar alguma iniciativa que mitigasse a algumas das causas mitigáveis do aborto.

No último referendo tive a noção de que o “não” era arrogante e dogmático. Era jovem, e como a maior parte dos indivíduos desta classe, uma autêntica besta. A única coisa que posso alegar em meu favor foi que, à última da hora, decidi não votar (e o voto teria ido para o “sim”). Apercebi-me que havia algo de muito errado em tomar decisões quando estamos tomados por emoções. Nos últimos dias tenho visto militantes do “sim”, nos mais diversos contextos, a puxar o tema do aborto para insultar gratuitamente os partidários do “não”. Também eu em tempos os achei merecedores de insultos, o que me faz pensar que o ser humano não foi feito para viver em sociedade, apenas em pequenas em comunidades, mas como é em sociedade que vivemos não podemos confiar apenas na nossa natureza.

O argumento da liberdade de escolha da mulher tem algum peso. Contudo, a liberdade não é usada como um valor em si, é apenas mais um argumento que se adiciona a outros. Penso que a pouca valoração que os portugueses conferem à liberdade deve-se a ser um conceito bem longe de estar entranhado na alma lusitana e ninguém pode dar valor ao que não conhece nem vive com paixão. Caso contrário, cada vez que alguém falasse na liberdade de fazer o que se bem entender, imediatamente haveria uma reacção maciça a defender a necessidade complementar de responsabilidade. E, no caso do aborto, um oposição maciça ao seu financiamento, porque constitui uma transferência de uma responsabilidade individual para uma responsabilidade do colectivo.
Se a liberdade fosse vista como um valor em si, teria de ser defendida sempre e não apenas quando dá jeito. É uma ironia que uma mulher possa vir a ser livre para abortar, como tudo indica, mas caso seja mãe já não pode escolher a escolha para os seus filhos. Mais caricato ainda, muitos dos partidários do aborto livre têm vindo a defender penalizações para os pais que deixem os filhos engordarem. As principais forças a favor do “sim” têm projectos totalitários para a sociedade. Caso tomassem o poder não teriam qualquer pudor em tomar conta da barrigas das mulheres, a definir quantos filhos cada uma teria de ter e quando os devia ter. Um excesso de população decretaria uma esterilização de milhares de mulheres. Caso houvesse um défice populacional, seriam criadas comunidades de fertilidade. Claro que ninguém defende isto abertamente, nem a maioria das pessoas a favor do “sim” espelham esta mentalidade. A grande surpresa que tive neste referendo foi ver pessoas pelo “sim”, que considerava responsáveis e que têm argumentos válidos, a unirem-se a pessoas de mentalidade totalitária.
MC

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Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

Bjørn Lomborg sobre as escolhas fundamentais (IV)

Última parte da transcrição/tradução da apresentação de Bjorn Lomborg.

O que nos diz isto sobre a nossa lista de prioridades? Olhando para a vossa lista de prioridades, condiz com os resultados que apresentamos ou aproxima-se deles? Voltando novamente ao tema das alterações climáticas, há muitas pessoas que acham que devíamos tratar desde problema quanto mais não seja por ser um grande problema. Mas nós não podemos tratar de todos os problemas, são demasiados. O que gostaria de transmitir é que, se nos focamos nos problemas devemos seleccionar os certos, aqueles onde podemos fazer a diferença e não os em que pouco podemos influenciar.

Thomas Schelling, um dos participantes do “dream team” [oito peritos responsáveis pela lista de prioridades], salientou muito bem uma coisa que as pessoas esquecem, que daqui a 100 anos, quando a maior parte dos impactos das alterações climáticas se fará sentir, as pessoas serão muito mais ricas. Mesmo as previsões mais pessimistas da ONU estimam que em 2100 o nível médio de vida dos cidadãos nos países em desenvolvimento serão iguais aos nossos [trata-se de um nórdico a falar para americanos]. O mais provável é que sejam duas ou três vezes mais ricos que nós agora e claro que nós ainda seremos mais ricos. Por isso, quando falamos em ajudar as pessoas no Bangladesh em 2100 não estamos a falar de “bangladeshis” [não encontrei a designação portuguesa] pobres mas sim em ajudar holandeses ricos. Por isso a questão é se queremos gastar imenso dinheiro para dar uma ajuda ligeira a holandeses ricos daqui a 100 anos ou se queremos ajudar hoje as pessoas no Bangladesh, que são realmente pobres, que precisam mesmo de ajuda e a podemos fornecer de forma muito pouco dispendiosa.

Schelling também colocou o seguinte cenário, imaginem que estão em 2100 e são um chinês, um boliviano ou um congolês rico, como eles serão. Irão lembrar-se das decisões tomadas em 2005 e pensarão como foi bizarro que se tenham preocupado tanto em ajudar-me a mim um pouco, com medidas de combate às alterações climáticas, mas tenham feito tão pouco para ajudar o meu avô ou o meu bisavô, que podiam ter ajudado muito mais e necessitavam dessa ajuda.

Isto mostra-nos a importância em estabelecermos as prioridades mesmo que isso vá contra a forma típica como vemos estas coisas. Isto deve-se aos bons filmes que existem para chamar atenção para as alterações climáticas, como “The day after tomorrow”,que é uma boa peça de entretenimento, agora não esperem ver o Brad Pitt num próximo filme a limpar latrinas na Tanzânia, não é muito apelativo para nós. De várias maneiras o “Copenhagen Consensus” e toda esta discussão sobre prioridades faz a defesa dos problemas chatos e desinteressantes e faz-nos perceber que esta discussão não tem como objectivo fazer-nos sentir bem, não é fazer aquelas coisas que têm mais atenção mediática mas sim escolher os locais e as situações onde mais podemos ajudar.

Os críticos dizem que estamos a estabelecer falsas escolhas, que é um falso dilema. Num mundo ideal certamente concordo que devemos atender a todos os problemas, mas não é esse o caso. Em 1970 o mundo desenvolvido disse que iríamos gastar actualmente o dobro em ajuda aos países do terceiro mundo, contudo a ajuda passou para metade [suponho que com as actualizações necessárias] e por isso não me parece que estejamos no bom caminho para resolver os grandes problemas. Algumas pessoas falam da guerra do Iraque, onde se gastaram 100 mil milhões de dólares, que podiam ser utilizados para melhorar o mundo. Se alguém conseguir convencer Bush em ir por aí, também alinho. Mas ainda assim, com mais 100 mil milhões de dólares devemos gastá-los da melhor forma possível e teremos de voltar à lista de prioridades.

É esta a melhor lista possível? Para além de termos perguntado a alguns dos melhores economistas do mundo, fizemos paralelamente as mesmas perguntas a 80 jovens à volta do mundo. O requerimento é que fossem estudantes universitários e falassem inglês. A maior parte eram de países desenvolvidos. A surpresa foi que a lista que elaboraram foi bastante similar, com a má nutrição e as doenças no topo e as alterações climáticas no fundo. Já repetimos isto muitas vezes em seminários, com estudantes universitários e os resultados são muito semelhantes. E isso dá-me confiança para dizer que existe um caminho adiante que nos leve a começar a pensar em prioridades e perguntar o que é realmente importante no mundo. Claro que num mundo ideal, volto a dizer, iríamos adorar resolver todas as situações, mas não o podendo fazer, o que deve vir em primeiro lugar?

Vejo o “Copenhagen Consensus” como um processo, com os primeiros resultados em 2004. Para 2008 e 2012 esperamos reunir muito mais pessoas,e melhor informação e traçar o caminho certo para o mundo. Mas também começar a pensar na triagem política, optar não pelas coisas onde podemos fazer muito pouco com um custo muito elevado, nem por aquelas que não sabemos como fazer, vamos antes optar pelas coisas que produzam os maiores benefícios, com um custo reduzido e que comecemos a fazer isso de imediato. No final do dia podem discordar da forma como elaboramos as prioridades mas temos de ser francos em honestos em admitir que se há algumas coisas que fazemos, outras terão de deixar de ser feitas, se nos preocupamos demasiado com algumas coisas, outras ficarão esquecidas. Então, espero que isto [ao mesmo tempo que faz um gesto que se supõe ser para o slide que apresenta as conclusões finais, mas que no fundo simboliza toda a apresentação e o “Copenhagen Consensus”] nos ajude a definir melhores prioridades e a pensar como trabalhar melhor em prol do mundo. [aplausos]
MC
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Bjørn Lomborg sobre as escolhas fundamentais (III)

Bjørn Lomborg continua, explicando sucintamente o processo do “Copenhagen Consensus”.

Convidamos 30 dos maiores economistas mundiais, três para cada área. Três economistas de topo escrevendo sobre alterações climáticas, o que podemos fazer? Quais são os custos e os benefícios? Da mesma forma para as doenças contagiosa e assim por diante. Depois, em Maio de 2004, na Dinamarca, 8 dos maiores economistas do mundo, incluindo três laureados com prémio Nobel, avaliaram as propostas e elaboraram a lista de prioridades.

Podem perguntar, porquê economistas? É uma boa questão. O ponto é que, se querem saber sobre malária devem ir perguntar a um especialista em malária, se querem saber sobre clima dirigem-se a um climatologista. Mas se querem saber a qual devem dar primazia não podem perguntar a nenhum deles, porque não é isso que fazem, essa é a tarefa dos economistas. Estabelecem prioridades, o que se deve fazer primeiro e o que deixar para depois.

A lista estabelecida pelo “Copenhagen Consensus”, que quero partilhar convosco, diferencia entre maus projectos, onde o investimento de 1 dólar origina um retorno inferior a 1 dólar. E depois há projectos razoáveis, bons projectos e projectos muito bons e é natural que se comece por estes.

Então vamos começar pelo fim da lista e depois subimos até aos melhores projectos. Como podem ver, no fim da lista estão as alterações climáticas. Isto deixa muitas pessoas ofendidas e é bom falarmos sobre isto. Dizer que o protocolo de Kyoto é uma má opção tem a ver com a sua eficiência muito reduzida, não quer dizer que não existe aquecimento global [essa é outra conversa], nem que não se trata de um grande problema mas sim que o que podemos fazer é muito pouco e tem um custo muito elevado. O que os modelos macroeconómicos nos mostram é que o Protocolo de Kyoto, se todos concordassem com ele, custaria 150 mil milhões de dólares por ano. É uma grande quantidade de dinheiro, que representa duas ou três vezes a ajuda aos países em vias de desenvolvimento, todos os anos. O que os modelos mostram é que o Protocolo de Kyoto consegue retardar o aquecimento em 6 anos no ano 2100. Isso significa que as pessoas no Bangladesh, que ficariam com inundações em 2100, poderiam esperar até 2106, o que é positivo mas não ajuda muito.

Então devemos gastar muito dinheiro para ter um retorno assim tão modesto? Como referência, a ONU estima que com metade do que se gastaria no Protocolo de Kyoto, 75 mil milhões de dólares por ano, poderíamos resolver todos os problemas básicos do mundo, água potável, redes sanitárias, cuidados de saúde e educação para todos os seres humanos do planeta. O que nos devemos perguntar é se queremos gastar o dobro e não provocarmos grandes melhorias ou apenas metade e ter um resultado incrivelmente positivo? [A construção da frase não está completamente correcta mas percebe-se facilmente o sentido da pergunta.] E é essa a razão da classificação como mau projecto, não quer dizer que se tivéssemos todo o dinheiro do mundo não o faríamos, mas como não temos não pode ser a nossa prioridade.

Nos projectos considerados razoáveis temos o fornecimento de cuidados básicos de saúde. Neste caso os efeitos são bastante positivos mas os custos são também muito elevados. Isto deve levar-nos a começar a pensar nos dois lados da equação. Entre os bons projectos temos a construção de redes sanitárias e de água potável, que são coisas muito importantes mas têm também custos elevados.

Gostaria de falar dos projectos no topo, que deviam constituir as nossas prioridades. O quarto melhor projecto está relacionado com a malária. Todos os anos são infectadas cerca de 500 milhões de pessoas com esta doença, o que para as nações onde a incidência é maior representa gastos que são uma fracção importante do produto interno bruto. Investindo cerca de 13 mil milhões de dólares nos próximos 4 anos poderíamos reduzir a incidência para metade, impedir a morte de 350 mil pessoas e, talvez ainda mais importante impedir a contaminação de quase 1 bilião de pessoas todos os anos. Iríamos aumentar significativamente as suas possibilidades de lidarem com os outros problemas com que se defrontam, a longo termo até com o aquecimento global.

O terceiro melhor projecto tem a ver com o comércio livre. O que os modelos mostram é que com o comércio livre e cortando subsídios na União Europeia e nos Estados Unidos a economia mundial ir-se-ia avivar com incrível ganho de 2400 mil milhões de dólares por ano, metade dos quais em favor dos países do terceiro mundo. Isto quer dizer que poderíamos tirar da pobreza 200 ou 300 milhões de pessoas muito rapidamente, num prazo de 2 e 5 anos. Esta seria a terceira melhor coisa que podíamos fazer.

O segundo melhor projecto diz respeito ao combate à má nutrição, não a má nutrição em termos gerais, mas há uma forma bastante acessível de lidar com o problema combatendo a falta de micro-nutrientes. Cerca de metade da população mundial tem carências de ferro, zinco, iodo e vitamina A. Investindo 12 mil milhões de dólares podíamos melhorar muito esta situação.

E o melhor projecto seria o que tem o foco no HIV/SIDA. Basicamente investindo 27 mil milhões de dólares nos próximos 8 anos poderíamos evitar 28 milhões de novos casos da doença. É preciso realçar que há duas formas muito diferentes de tratar do HIV/SIDA, uma o tratamento e a outra a prevenção. Num mundo ideal poderíamos fazer ambas mas devemos perguntar onde devemos investir primeiro e o tratamento é muitíssimo mais caro que a prevenção. O que isto nos diz é que podemos fazer muito mais investindo na prevenção, obtendo benefícios 10 vezes superiores para gastos equivalentes.

(Cont.)
MC
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Bjørn Lomborg sobre as escolhas fundamentais (II)

Em Fevereiro de 2005 Bjørn Lomborg fez esta apresentação, onde em 17 minutos explicou o fundamental do “Copenhagen Consensus” (ver post anteior). Não sendo uma iniciativa completamente imune a críticas, tem a virtude de chamar a atenção para uma série de questões que normalmente ficam esquecidas quando se abordam os grandes problemas da humanidade. Segue-se uma tradução “livre” desta apresentação, onde se procura ser fiel a todas as ideias apresentadas, apesar do muito trabalho criativo necessário não só para traduzir o inglês para português mas também as adaptações necessárias da passagem do discurso falado, que se pode recorrer de gestos e entoações, para o discurso escrito mais limitado nesse sentido.

Quero-vos falar dos grandes problemas do mundo, não do”
The Skeptical Environmentalist”, provavelmente também uma boa escolha [risos na plateia]. Antes de continuar, peço que peguem em papel e caneta. A matéria de fundos são os muitos problemas existentes no mundo, referindo apenas alguns mais relevante: Existem 800 milhões de pessoas que sofrem de fome, mil milhões com escassez de água potável, 2 mil milhões sem instalações sanitárias, dois milhões que morrem de SIDA por ano, 175 milhões de migrantes, 940 milhões de adultos iletrados e vários biliões [terminologia americana, em que um bilião corresponde a mil milhões] serão afectadas pelo aquecimento global.

Existem realmente muitos problemas. Num mundo ideal iríamos resolve-los todos, mas na realidade não o podemos fazer. E sendo assim, a questão que penso que devíamos colocar a nós mesmos é, se não podemos fazer tudo quais são as coisas que devíamos resolver em primeiro lugar? E é essa a questão que vos quero colocar, se tivéssemos 50 mil milhões de dólares para gastar nos próximos 4 anos, para melhorar este mundo, onde os devíamos gastar?

Identificamos 10 grandes desafios para a humanidade: alterações climáticas, doenças contagiosas, conflitos, educação, instabilidade financeira, governação e corrupção, fome e má nutrição, população: migração, água e cuidados sanitários, subsídios e barreiras alfandegárias. Acreditamos que este conjunto reúne os grandes problemas do mundo. A questão que parece óbvia de ser feita é, quais são as matérias fundamentais? Por onde devíamos começar? Mas esta é uma abordagem errada, também seguida em Davos, onde se coloca a ênfase apenas nos problemas […]. A abordagem correcta não é ter uma lista de prioridades dos problemas mas sim das suas soluções. Para as alterações climáticas temos o protocolo de Kyoto, para as doenças contagiosas clínicas e redes de mosquitos, para os conflitos forças de segurança da ONU, etc. Neste cenário mais complexo peço-vos a tarefa impossível de, em 30 segundos, traçar as prioridades mas também, e aqui recai o odioso sobre os economistas, aquilo que deve ficar no fundo da lista.

O que pretendo nestes 18 minutos é colocar-vos a pensar neste processo de prioritização.E devíamos questionar porque razão nunca tinha sido feita uma lista como esta. E uma razão é que a prioritização é extremamente desconfortável, ninguém a quer fazer. Todas as organizações quereriam estar no topo desta lista mas, ao mesmo tempo, todas as organizações iriam detestar não estar no topo da lista. E como existem muito mais lugares no fundo do que no topo, faz todo o sentido não querer fazer a lista [e sofrer a inevitável impopularidade]. A ONU existe quase há 60 anos e nunca elaboramos uma lista das grandes coisas que podemos fazer no mundo e estabelecer as que devemos fazer primeiro.

Mas isto não quer dizer que não estejamos a fazer um processo de prioritização, cada decisão é o estabelecimento de uma prioridade. Mas estamos a fazê-lo de forma implícita e é muito improvável que isso seja uma melhor solução do que uma prioritização feita de forma consciente e discutida. Durante muito tempo tivemos uma situação em que onde havia muitas escolhas, muitas coisas que podíamos fazer, mas não tínhamos nem os custos nem os” tamanhos”. Para ter uma ideia, era como ir a um restaurante, ter um menu enorme mas sem preços. Imaginem pedir uma piza, não sabem o preço, pode ser um dólar, podem ser mil, pode ser uma familiar ou então uma fatia individual. Nós gostamos de saber estas coisas e é isso que o “Copenhagen Consensus” tenta fazer, colocar preços nestes itens.

(Cont.)

MC
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Bjørn Lomborg sobre as escolhas fundamentais (I)

O que fazer em relação aos problemas fundamentais com que a humanidade se defronta? Não é difícil encontrar opiniões sobre o assunto, ouvimo-las nas mesas dos cafés e até nos concursos de “Miss Universo” e, em regra, não as levamos muito a sério. Pelo contrário, quando os telejornais abrem com previsões catastróficas sobre o futuro do planeta, que supostamente andamos a destruir de forma inexorável, são poucos aqueles que resistem à tentação de considerar as alterações climáticas como o problema fundamental e mais premente que a humanidade se defronta. Temos também a ONU a sempre a lembrar os problemas de saúde, educação, fome e má nutrição, conflitos civis, entre outros, que subsistem no mundo, quando não aumentam

Face a este conjunto de problemas, a ONU dita um despejar de dinheiro em cima de cada um sem grande critério. Rotineiramente vão aparecendo «grandes ameaças para a humanidade», como a gripe das aves, que despertam uma grande atenção e também competem para a disputa dos fundos existentes. Bjørn Lomborg, autor do livro
The Skeptical Environmentalist teve a iniciativa de lançar o projecto “Copenhagen Consensus” que visa introduzir o conceito de prioritização para que as decisões tomadas sejam realmente eficazes na resolução dos problemas. O projecto reuniu em Maio de 2004, na Dinamarca, oito economistas, três deles prémio Nobel, que responderam à pergunta: «Se tivesse 50 mil milhões de dólares para gastar nos próximos 4 anos, que projectos iria escolher para melhorar o mundo?»

Para responder a este pergunta foram confrontados com 32 propostas de 10 especialistas
, que elaboraram 10 documentos nas seguintes áreas: Subsídios e barreiras alfandegárias, fome e má nutrição, alterações climáticas, conflitos, instabilidade financeira, água e cuidados sanitários, migração de populações, doenças contagiosas, educação e, finalmente, governação e corrupção. Alguns projectos tiveram uma avaliação inconclusiva, tendo no final restado 17. As classificações que obtiveram serão surpreendentes para muitos já que no fundo da lista e considerados maus projectos, ficaram 3 propostas relacionadas com o combate às alterações climáticas. A proposta melhor classificada dizia respeito ao controlo do HIV/SIDA.

Os resultados podem ser vistos a fundo no livro Global Crises, Global Solutions
.Também se pode encontrar muita informação no site do Copenhagen Consensus Center. Para ter uma noção das principais questões que envolvem este assunto é aconselhável ver esta apresentação que Bjørn Lomborg fez para um auditório de mil pessoas . Em alternativa ou como complemento podem-se ler os restantes posts desta série, que fazem a transcrição/tradução mais ou menos fiel da apresentação.

Série de posts inspirada neste post do André Azevedo Alves publicado n' O Insurgente.
MC
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Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Semiramis, um ano depois do fim

Precisamente há um ano atrás, em 2 de Fevereiro de 2006, era publicado no blog Semiramis o artigo “12ª Medida Anti-burocracia”. Durante cerca de 4 meses este post, em nada excepcional em relação ao resto do blog, recebeu 2133 comentários. Os primeiros comunicados na caixa de comentários informando do falecimento da Joana, não foram levados a sério. A autora transparecia uma jovialidade e vitalidades contagiantes, mesmo para quem com ela não concordava. Não havia muito tempo o Semiramis tinha sido eleito o melhor blog de direita de 2005, numa votação promovida pelo O Insurgente. A Joana não concordaria totalmente com o rótulo “direita” mas compreendia que as divisões entre direita e esquerda facilitavam as classificações. Esta distinção é notável para um blog individual que concorria com outro blogs colectivos de peso, em particular o Blasfémias.

Mas o percurso do Semiramis nunca foi fácil. Os registos mais antigos do blog datam de 2 Outubro de 2003, onde estão publicados vários posts que terão sido escritos anteriormente. Em cerca de dois anos e meio terão sido publicados 1246 posts. Obtive este número somando os números que constam no blog na lista do “Arquivo por Secções”. Caso alguns posts tenham sido classificados em mais que uma categoria este número estará inflacionado. O que quero salientar é o ritmo impressionante de publicação da Joana, no mínimo diário. E não se tratavam de posts curtos, pelo contrário, a sua dimensão era quase sempre bem longa em relação ao que é costume encontrar nos blogs e mesmo em jornais, não raras vezes.

Os posts sobre análise económica e política constituíam o grosso do Semiramis. Mas é justo distinguir os artigos sobre História onde a Joana nos mostrava que podíamos aprender alguma coisa com o passado se para isso estivéssemos dispostos. O estilo da Joana era directo, vivo, sem receios de infringir os cânones do politicamente correcto. Enfrentava sem temor e com lucidez os que a criticavam, frequentemente de forma insultuosa. No primeiro post de 2005 começa por escrever: «Neste início de ano venho aqui formular uma promessa, a mim própria e a quem me lê, gostando ou não: Não desisto.» Era uma mensagem clara para os alarves que pensavam que lhe dobravam o espírito com as suas manobras boçais.

Contudo, consta que a Joana na «vida real» não assumia a autoria do seu blog, supostamente para não prejudicar a sua vida profissional e, quem sabe, social. Não podemos saber ao certo as verdadeiras razões deste recato. A Joana defendia insistentemente a liberdade, a redução do peso do estado, a urgência em realizar reformas e desmontava as falácias do intervencionismo. Até que ponto vivemos numa sociedade doente quando ideias como estas dificilmente podem ser defendidas em público sem receber-se de imediato um conjunto de insultos como reaccionário, «neo-liberal» ou fascista. Essa mesma sociedade onde se manifesta cada vez mais o xenofobismo (sobretudo anti-semita e anti-americano), onde o terrorismo é olhado com uma complacência cada vez maior e onde os ditadores progressistas não são poupados a elogios.

Nos próximos posts mais sobre conteúdo do Semiramis.
MC
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Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Pequenos Portugueses

Já fiz uma apreciação do programa “Grandes Portugueses” em termos mais suaves aqui. Entre os 10 finalistas, todas grandes figuras mas apenas alguns grandes homens, constam várias personagens autoritárias. O autoritarismo de D. João II ou Vasco da Gama serão compreensíveis para a época em que viveram. Bem mais preocupante é a inclusão de 3 figuras mais recentes: O Marquês de Pombal, Salazar e Álvaro Cunhal. O defensor do Marquês de Pombal disse, ressalvando algum erro de memória, que esta personagem teve que enfrentar as resistências à mudança daquela época e só não conseguiu impor um capitalismo a sério em Portugal. Por isso, ainda hoje se chama Terreiro do Paço à Praça do Comércio, apesar da mudança de nome decretada por Pombal.

A figura do Marquês é complexa, como todas as outras, aliás, e vou ater-me apenas a este ponto. Ao contrário do que muitos possam pensar, o autoritarismo e o capitalismo (não os capitalistas, mas isso é outro post) não têm uma convivência natural. O capitalismo requer liberdade de troca mas também responsabilidade e para isso é necessário algum tipo de autoridade. Contudo, a autoridade, só por si, não cria capitalismo algum, especialmente se for um autoritarismo que todos paralisa através do terror. É um contra-senso impor o capitalismo, o máximo que se pode fazer e deixá-lo acontecer.

A inclusão de Salazar na lista dos 10 mais é incómoda para muitos. Mas pode ser uma oportunidade para matar alguns fantasmas. Até arrisco dizer que esta sobrevalorização de Salazar é mais uma das consequências inesperadas das “conquistas de Abril”, vejamos porquê. Os que reclamam os louros de ter feito o 25 Abril acontecer, especialmente se tiveram um passado de luta “anti-fascista”, têm pouca obra para mostrar. A liberdade que hoje temos não é a mesma liberdade que nos queriam impor. A maior riqueza que hoje desfrutamos não advém das suas políticas mas precisamente daquelas a que sempre se opuseram. Mesmo o Estado Social é obra do regime anterior, pela mão de Marcello Caetano. As próprias conquistas de direitos e regalias para os trabalhadores, reclamadas pelos sindicatos abrilistas, são meras ficções. Elas são a consequência do crescimento económico e não da berraria sindicalista.

Face a isto, o que têm os “heróis de Abril” para oferecer? Apenas um peito inchado para cantar as fábulas em que eles mesmo são os heróis que lutaram contra a besta fascista. O resultado é que quase 5 décadas do anterior regime foram resumidas em poucos slogans. Criou-se um interdito que, estranhamente, conseguiu beneficiar tanto Salazar como Cunhal. Salazar é beneficiado porque não é banalizado e quem não o identifica com o mal absoluto poderá ter a tendência para lhe ver um brilho especial, uma aura de salvador. Fosse visto tal como ele é, sem complexos de esquerda, dificilmente Salazar entraria nos 100 mais.

Salazar e Cunhal foram tanto adversários como aliados. É difícil saber se a sua aliança chegou a ser intencional ou mesmo consciente mas, dado tratarem-se de duas pessoas inegavelmente inteligentes, não se pode afastar qualquer uma das possibilidades. A Salazar interessava manter o regime e para isso ajudou a existência controlada de um Partido Comunista como uma ameaça sempre latente, mesmo que irrealista. Não que a estratégia de manutenção do Estado Novo dependesse apenas da sugestão da ameaça comunista, nem digo que fosse pedra fundamental. Mas quem queira conhecer a realidade deste país não pode esquecer que muitas pessoas, que nada admiravam o Estado Novo, nunca contra ele se mobilizaram dado o que sabiam dos acontecimentos dos regimes comunistas.

A Cunhal interessava a implementação do comunismo em Portugal e não propriamente o derrube do regime. Note-se que, ao contrário de outros partidos comunistas na Europa, o português nunca teve intenção de levar para a frente o socialismo pela via democrática. O derrube do Estado Novo apenas mediante determinadas condições poderia abrir caminho para a tomada de poder pelos comunistas, tinha de ser na altura certa e da forma apropriada. Mais facilmente a derrocada do salazarismo poderia dar lugar a outra ditadura reaccionária que, quase certamente, iria perseguir o comunismo de forma muito mais feroz. O que os comunistas esperavam não era a oportunidade que a democracia lhes iria dar para se afirmarem. A sua rede de influência já estava consolidada mesmo no Estado Novo, o que esperavam era o momento de transição, em que a indefinição do momento lhes abrisse caminho para a tomada do poder. E nessa transição confiavam no apoio internacional do bloco soviético, que dificilmente iria ocorrer antes num pais membro da NATO.

As votações em Cunhal e Salazar, bem como no Marquês de Pombal, pouco têm em conta estas disposições estratégicas. Representam o poder, a vontade, mesmo a teimosia e a crueldade. Todos, à sua maneira, pretenderam reencarnar D. Sebastião, não o verdadeiro, obviamente, mas o ideal, o omnipresente, a referência única, o salvador. Foram, provavelmente, os três portugueses que mais danos causaram ao país.
MC
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Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

Aborto e Referendo (VI)

Será relevante saber quando começa a vida humana? Foi dos assuntos mais falados no referendo anterior mas penso tratar-se de uma verdadeira infantilidade. Claro que para quem não aceita discutir a pena de morte é delicado falar em vida humana intra-uterina e ser “pró-escolha”. Não há ninguém no seu perfeito juízo que possa negar que depois da concepção já está em marcha um processo que levará à formação de um ser humano completo. Isto não implica que um aborto seja igualmente condenável ou desculpável tanto ao fim de uma semana como ao fim de 9 meses. A verdadeira diferença não está num suposto marco existencial onde passamos a seres humanos. Tentar determinar isso, para lá da concepção, é tentar descobrir os desígnios de Deus, da evolução, da Natureza ou do que quiserem, numa arrogância em não ver as limitações da mente humana. Contudo, o que se pode determinar é a partir de que altura o novo ser em formação já tem capacidade de sofrer. Imagino que essa capacidade não apareça toda de uma vez, nem faço ideia em que altura ocorre. Nem sequer adianto que deva ser o único factor a ter em conta para o (eventual) fixar o prazo para a IVG.

Existe um limite, que me parece óbvio, para o tempo máximo de gestação onde depois do qual nunca deveria ocorrer um aborto, salvaguardando eventuais situações excepcionais. Esse limite é aquele onde o desenvolvimento do novo ser já pode ser assegurado sem a exclusividade da mãe biológica. Esse limite será sempre essencialmente estabelecido pelo estado da tecnologia e ninguém saberá até quão perto da concepção poderá chegar. Repare-se que não foi dito que o limite será totalmente estabelecido por considerações tecnológicas, já que se poderá chegar a situações que levantem novos dilemas verdadeiramente existenciais, que hoje não conseguimos conceber.

Mas existem outros dilemas que se podem colocar muito mais brevemente. Mas fácil que transferir um feto para uma incubadora artificial poderá vir a ser a transferência para outro ventre feminino. A partir da altura em que tal operação é realizável, em termos de tempo de gestação, até que ponto é ético realizar um aborto sempre que exista uma mulher disponível em aceitar o feto? Levantar-se-iam toda uma série de questões. Por exemplo, teria sentido em falar de apenas uma mãe biológica? Em que condições a «mãe original» poderia reclamar de volta o feto, caso mudasse de opinião? Que direito tem uma «mãe biológica adoptiva» em abortar? E em fazer também ela uma transferência para uma «segunda mãe biológica»? Naturalmente estas coisas teriam que ser contratualizadas, já que não parece existir outra forma de responsabilizar quem quer que seja.

MC
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