terça-feira, abril 05, 2005

Órfãos de Papa (1)


Começo desde já por esclarecer que o título não pretende ser provocador. É quase certo que o Papa estará nos seus últimos dias (entretanto, desde que comecei a escrever o post, o Papa já morreu), o que me fez sentir um estranha sensação de perda. Estranha porque não sou cristão, muito menos católico, e nunca tive uma especial simpatia por este Papa. Contudo, há alguns aspectos que me conduziram a este estado de espírito meio indefinido.

O longo pontificado do actual Papa faz com que não tenho memória de ter conhecido outro, por ser ainda muito novo na altura. De certa forma, isso cria no imaginário uma identificação entre a pessoa e o cargo, como se o cargo dependesse da pessoa que ocupa. Sendo assim, este poderia ser o último Papa e acabar-se-ia com a instituição. Claro que sabemos que não é essa a lógica que está por traz, nem corresponde às aspirações dos fieis.

No desporto, há situações em que aquele que vai à frente, já perto da meta, deixa-se ultrapassar por um outro concorrente, que apareceu “sabe-se lá de onde”. Uma vitória que parecia garantida, perdida por falta de atenção. De onde apareceu aquele gajo?, perguntará o indivíduo. Também me faço a mesma pergunta em relação a outras questões. Por exemplo, há uma dúzia de anos atrás, quando criticava os americanos e a igreja, onde estavam todos os anti-americanos e anti-clericais que agora se vêm por aí?

Não tenho a certeza de onde estavam, mas parece-me claro que só tiveram coragem de “falar contra” quando isso se tornou moda. Quando era complicado, todos mostravam desinteresse ou defendiam mesmo as posições opostas. Ser um crítico da igreja na actualidade não é um sintoma de existir maior discernimento. Critica-se porque é fácil e porque a instituição perdeu muito do seu poder.

(Cont.)

MC

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